Disco da Semana – Oito LPs para se apaixonar por Fela Kuti

Um dos maiores ícones da história da música e criador do Afrobeat ao lado de seu baterista Tony Allen, Fela Kuti era também uma figura fascinante e seus álbuns são repletos de história.

Um pouco da trajetória

Fela Ransome-Kuti, ou, posteriormente Fela Anikulapo-Kuti, nasceu em Abeokuta, cidade no norte do Estado de Lagos (Nigéria) em 1938, em uma época em que o colonialismo inglês era muito forte no país. Oriundo de uma família de classe média alta, porém anticolonialista, o compositor futuramente atribuiria suas visões políticas à influência de sua mãe – que se tornaria amiga de Kwame Nkrumah – primeiro presidente de Gana (1960) após a libertação do país do poder inglês e um dos fundadores do Pan-Africanismo. Nos anos posteriores, a Nigéria continuaria em uma espiral de golpes de estado e governos corrompidos pelo dinheiro dos países de “primeiro mundo”. 

O primeiro instrumento que Fela tem contato é o piano. Ainda aos 8 anos de idade, ele começa a fazer aulas por influência de seu pai. Já aos 16, em Lagos, um amigo lhe apresenta a cena musical local. Fela, empolgado pela banda do trompetista Victor Olaya e pelos discos de Jazz que ouviu pela cidade, decide aprender o instrumento. 

Em 1958, Kuti parte para Londres para estudar medicina, mas a paixão pela música já está enraizada. Ele abandona o curso e tenta ingressar no Trinity College of Music. Apesar de ter sido reprovado no teste, o diretor se compadeceu pelo menino que havia vindo de outro continente, e o deu uma chance. Mas como diz Michael Veal – autor de “Fela: Life and Times of an African” – em entrevista para a BBC, “Os músicos de jazz tinham um pé dentro e outro fora da escola de música. Fela nunca foi conhecido por ser um ótimo aluno. O coração e os ouvidos estavam no que estava sendo tocado na rua, que é onde a música acontece”.

Algum tempo depois, ainda na Inglaterra, Kuti formaria o grupo “Koola Lobitos”, que posteriormente começaria a fazer certo sucesso na cena musical de Lagos após a volta do músico para a Nigéria. Ele também teria seu primeiro contato com o lendário baterista Ginger Baker (com quem faria grandes parcerias no futuro) no Flamingo Club no Soho de Londres. Em 1965, Fela recrutou o melhor baterista de Lagos, que viria a ser o cocriador do Afrobeat e peça insubstituível durante toda a carreira do compositor. Trata-se de Tony Allen.

Em sua ida aos Estados Unidos em 1970, o artista absorve influências de músicos de Funk como James Brown e Bootsy Collins, que, amalgamadas ao Jazz e aos ritmos africanos, geraria o Afrobeat. Além disso, ele conhece Sandra Iszadore – integrante dos Panteras Negras, que o introduziria ao movimento negro, o pensamento de Malcolm X e à música de Nina Simone. A partir daí, o “Black President” (como também é conhecido Fela) passaria a absorver essa consciência política que seria parte essencial para lapidar também sua sonoridade.

Inspirado pelos ideais socialistas dos Panteras Negras e pelo estilo de vida hippie californiano, ao voltar para a Nigéria, o compositor funda uma comuna chamada “Kalakuta”, formada por um conjunto de casas cercadas por uma cerca de arame farpado, onde moravam ele, sua família, os músicos da banda, e vários outros jovens para os quais Fela oferecia trabalho pago para contribuir artisticamente com a banda. No complexo, que o compositor declarou independente do Estado, havia até um posto de saúde gratuito e um estúdio. 

Fela era um amante de seu continente e estava determinado a nutrir a identidade e independência cultural africana, ao mesmo tempo em que, de maneira inflamada, comunicava através de suas músicas toda a sua revolta em relação aos problemas e injustiças estruturais de seu país. Musicalmente, sua importância é colossal. Seguem 8 discos de sua enorme discografia, para quem conhece, se aprofundar, e quem não conhece, passar a conhecer!

Fela Kuti and the Africa 70’ with Ginger Baker – Live! (1971)

Uma bela noite, no Flamingo Club em Londres, Ginger Baker conheceu o prolífico baterista de Jazz Phil Seaman, que o convidou para seu apartamento. Lá, Seaman lhe apresentou a música africana, e foi amor à primeira audição. Em 1971, o ex baterista do Cream e do Blind Faith comprou um Range Rover e partiu atravessando o deserto do Saara rumo a Lagos (Nigéria), para descobrir novas sonoridades. Lá Ginger montaria o primeiro estúdio de 16 canais do país (Arc Studio) e ficaria amigo próximo de Fela Kuti – artista que encantou o baterista logo na primeira vez que o assistiu com sua própria banda, no estúdio Abbey Road. Era a união de dois dos mais folclóricos e temperamentais músicos de todos os tempos, além de uma explosão de talentos únicos e distintos, que misturados se encaixaram extraordinariamente. É um disco que dispensa comentários. Como cereja do bolo, Tony Allen e Ginger dão uma sincopada aula de ritmo, com direito ao solo de 16 minutos que encerra o LP. 

A história da viagem é contada no documentário “Ginger Baker in Africa” (1973) filmado pelo diretor Tony Palmer.

Roforofo Fight (1972)

Em 1972, o Afro Spot (casa de shows de Fela) não estava bem das pernas. O compositor então decidiu realoca-lo para o Empire Hotel, no bairro de Surulere, e renomea-lo “The African Shrine”. O ambiente era muito maior do que o anterior e começou a encher com cada vez mais frequência, funcionando não apenas como casa de shows, mas também como espaço de articulação política e engajamento cultural. Nesse ano Fela lançaria três importantes obras de sua discografia: Roforofo Fight, Shakara e Open & Close. Além disso, também fez uma participação no fantástico disco solo de Ginger Baker, “Stratavarious”

“Roforofo Fight”, é uma de suas maiores pérolas do início da década de 1970, e um de seus poucos álbuns com mais de 2 músicas. Além disso, é também um dos discos que mais trazem a influência do Jazz em seu acervo, e foi um dos primeiros LPs nos quais o compositor adicionou o iorubá, mesclando-o ao inglês.

Aqui temos quatro músicas de temática lírica semelhante, começando pela faixa título que, com uma levada veloz que forma a sustentação para solos jazzisticos de saxofone e teclado, trata da intolerância humana e a falta de diálogo que precede tantas guerras e violência. 

A groovada e cadenciada “Go Slow”, é uma reflexão sobre o caótico trânsito das ruas de Lagos, fazendo uma analogia com o caos político e social que o país vivia na época. Para o compositor, ambos representavam algo paralisador e incapacitante, como uma prisão. 

“Question Jam Answer” é outra sofisticada música de teor filosófico, também meditando sobre a condição e, principalmente, as relações humanas, assim como a última faixa do disco, “Trouble Sleep Yanga Wake Am”, esta, uma balada tradicional nigeriana diferente de quase tudo que Fela já fez na carreira.

Afrodisiac (1971 – 1973) 

Depois do sucesso de Kuti na terra natal com sua primeira banda, os ‘Koola Lobitos’, onde fundia os sons que havia assimilado na Inglaterra à música tradicional nigeriana, o músico foi convidado pela EMI – sua então gravadora –  para gravar em Abbey Road. Era o nascimento de Fela’s London Scene (1971), seu segundo álbum de estúdio desde o término dos Koola Lobitos. O compositor levou nove músicos de seu Africa 70’ e os outros todos eram músicos de estúdio baseados em Londres, já que a EMI não aceitou pagar as despesas do resto do Africa 70’.

 Aproveitando a ocasião, Kuti e sua banda resolveram regravar alguns singles que tinham tido boa recepção do público nigeriano. O resultado foi “Afrodisiac”, um de seus discos mais importantes. Não é à toa que, para que fosse concebido o clássico dos Talking Heads “Remain in Light”, David Byrne e companhia precisaram se embriagar nessa fonte afrodisíaca.

Gentleman (1973)

Um dos álbuns mais importantes de sua discografia, “Gentleman” marcou época como uma porta de entrada para o período mais prolífico da carreira de Fela (conhecido como Purple Period), que duraria até o ataque á Kalakuta pelos militares em 1977. Só de 1975 até 1977, foram 17 LPs lançados.

A faixa título é uma das mais brilhantes de seu enorme acervo. Ela refere-se ao que o compositor julga como um complexo de inferioridade cultural vindo de parte da população africana, que usava roupas de estilo europeu. Fela julgava que essa mentalidade atravancava o desenvolvimento do continente. Em “Gentleman”, Kuti entona: “A Africa é quente, e eu também; Eu sei o que usar mas meu amigo não sabe; Ele coloca meias, sapatos; ele coloca calças, ele coloca camisa, ele coloca sua gravata, ele coloca seu sobretudo; Ele é um cavalheiro; Ele vai se suar todo, ele vai desmaiar, vai cheirar à merda…Eu não sou cavalheiro desse jeito; Sou homem africano original”. A capa também faz essa referência, representando um macaco usando sobretudo.

O disco segue com “Fefe Na Efe”, um provérbio Ashanti (idioma oriundo da proeminente tribo ganesa de mesmo nome) que descreve “a beleza de uma mulher quando segura seus seios enquanto corre”. A música é um tributo à Gana, país bem próximo à Nigéria, no qual Fela tinha muitos fãs, e que também lhe rendeu amigos e esposas.

“Igbe” é a última faixa do álbum. Nela, Fela volta a quebrar paradigmas, ao cantar sobre traições dentro das relações de amizade. A tradução literal do título é “merda”.

Curiosidade – Nesse ano, Paul McCartney vai com o Wings para a Nigéria a convite da EMI, para conceber o icônico “Band on the Run” – Ele inclusive chega a gravar uma faixa no estúdio de Ginger Baker (Picasso’s Last Words), mas ainda vou fazer um artigo sobre isso. A história é a seguinte: As manchetes dos jornais de Lagos diziam que Fela estava acusando o compositor inglês de ir ao continente para roubar a música africana. Paul liga para Kuti e o convida a assistir uma sessão de gravações para provar o contrário. A partir daí as inimizades, não só instantaneamente acabam, como o Black President ainda convida Paul para o The Shrine. Os dois tiveram uma ótima noite.

Expensive Shit (1975)

No ano de 1975, a popularidade do músico estava começando a explodir, e sua casa de shows, (The Shrine) lotava todas as noites, assim como suas apresentações pelo país. Fela respirava música, e continuava extremamente prolífico, lançando 7 discos no ano, além de produzir e tocar no primeiro LP de Tony Allen (Jealously). 

Dentre os sete álbuns lançados em 1975 está o clássico “Expensive Shit, que é considerado por muitos o melhor trabalho de Fela, e provavelmente é o mais reconhecido. A história do álbum é realmente icônica, e o compositor a relata de maneira descontraída na faixa título. Vendo a Kalakuta e Kuti como ameaças, o governo nigeriano enviou policiais com o objetivo de prendê-lo por posse de maconha. Como não acharam nada, voltaram na semana seguinte trazendo um cigarro no bolso. Fela achou o cigarro que plantaram na casa e o engoliu imediatamente, acabando com qualquer evidência de crime. Mesmo assim, os agentes levaram-no e o mantiveram detido por 3 dias, aguardando um exame que pudesse incriminá-lo (sim, de fezes). Depois de trocar os recipientes com a ajuda dos detentos, Fela se viu livre de qualquer possibilidade de incriminação. Do incidente, vem o nome “Expensive Shit” (Merda cara).  

O disco é uma aula de Afrobeat, e a faixa título, uma das mais influentes do gênero. Um detalhe é que Fela e o Africa 70’ nunca tocavam músicas presentes em álbuns em shows. Era tudo inédito ou improvisado, o que contribuía para o entrosamento de uma banda que estava em seu ápice produtivo. A segunda faixa, “Water Get No Enemy” tem um cunho mais filosófico, tratando a água como uma representação da fluidez da música e de todos os elementos do universo. É baseada em um provérbio ioruban sobre o poder da natureza.

Noise For Vendor Mouth (1975)

Com uma discografia tão extensa (são mais de 40 LPs), é natural que alguns álbuns fiquem, de certa forma, esquecidos. Esse é o caso de Noise For Vendor Mouth, uma joia de seu acervo, lançado no mesmo ano de 1975. O disco foi gravado no estúdio de Ginger Baker meses antes de mais um golpe de estado no país, e 2 anos antes dos militares invadirem a comuna. Antes mesmo do golpe, a relação entre a Kalakuta e o governo já produzia muitas faíscas. Para o Estado, o complexo era constituído apenas por vagabundos, drogados e “hooligans”. A faixa título é um tributo a todos os que ali moravam, exaltando o fato de que eram trabalhadores esforçados que tentavam viver dignamente em meio a uma sociedade corrupta e hierárquica. Ele considera os insultos nada mais do que “O barulho da voz de um vendedor da feira”, e enuncia que os políticos são os verdadeiros hooligans.

A segunda faixa é controversa. Fela era um poligâmico assumido e chegou a ter 27 esposas simultaneamente, sendo acusado de não reconhecer a luta feminista. Sua abordagem em relação a isso era aberta, e em “Matress”, ele fala sobre sexo. De acordo com o compositor, a poligamia é algo natural do ser humano.

Musicalmente, Noise for Vendor Mouth tem uma fantástica dinâmica, que é construída a partir de uma intro de quase 4 minutos que pavimenta uma ponte até uma catarse, que se estende por quase toda a música. A bateria de Tony Allen, em ambas as faixas, é fantástica, especialmente suingando ao lado do baixo de Franco Abbody e da guitarra rítmica de Leke Benson – talentoso guitarrista que havia entrado na banda naquele mesmo ano e posteriormente também gravaria discos como Kalakuta Show e Expensive Shit. 

Kalakuta Show (1976)

Em 1975, o compositor havia mudado seu nome, de Fela Ransome-Kuti – designação que considerava colonial e cristã – para um nome legitimamente africano – Fela Anikulapo-Kuti. Também muda a alcunha da banda, de Africa 70’ para Afrika 70. No ano seguinte, ambas as designações foram utilizadas pela primeira vez, estreadas na capa do ótimo álbum Ikony Blindness. No mesmo ano de 1976, Fela se torna mais engajado com o grupo político de esquerda “Young African Pioneers”, do qual seu artista gráfico Lemi Ghariwokwu é membro ferrenho. Esse fato evidentemente chama a atenção das autoridades nigerianas.

Kalakuta Show é a história de um dos tantos confrontos da comuna contra a polícia de Lagos. Na ocasião, que ocorreu dois anos antes, os policiais invadiram a Kalakuta baseando-se na premissa falsa de que Fela teria sequestrado uma mulher. Eles jogaram gás lacrimogênio e evacuaram toda a propriedade, batendo indiscriminadamente em todos os moradores. Todas as mulheres detidas não eram menores de idade e negaram terem sido sequestradas. Foi mais uma tentativa fracassada de incriminar o músico. Musicalmente, Kalakuta Show é uma das faixas mais catárticas da carreira do Black President. Uma obra-prima.

Na segunda e última música do LP, “Don’t Make Ganran Ganran”, o compositor repudia a atitude gananciosa e egoísta da elite do país, afirmando que o direito à terra é de todos, pois “somos todos filhos e filhas da terra”, e entonando que “quando o céu cair, cairá sobre todos”. A percussão e bateria conversam de maneira hipnótica, enquanto os metais harmonizam e ornamentam o resto da faixa. Os vocais femininos estão novamente presentes.

Zombie (1976-1977)

Os militares já cultivavam um tremendo ódio em relação ao compositor havia anos, mas Zombie foi o disco que realmente os deixou indignados, e foi um dos estopins para o fim da Kalakuta. Um LP totalmente inflamado. Na faixa título, Fela, em um maravilhoso tom de deboche, compara os homens fardados à zumbis. “Sem cérebro, sem trabalho, sem bom-senso”. A segunda faixa, “Mister Follow Follow” segue a mesma temática, criticando aqueles que seguem com os olhos, bocas e ouvidos fechados. 

O FESTAC e o fim do Purple Period

Após anos de idealização, em janeiro de 1977 o FESTAC finalmente iria acontecer. Tratava-se de um festival de grandiosidade olímpica, sediado na Nigéria, com quase 1 mês de duração, e com a premissa de unir os artistas negros de todos os continentes e mais diversos países do mundo. Fela Kuti, evidentemente, por ser o artista mais importante do país, foi chamado para integrar o Comitê Nacional de Participação do festival ao lado de outros artistas nigerianos. O músico chegou a participar brevemente, mas logo renunciou ao cargo quando começou a desconfiar da real finalidade do evento – foram gastos questionáveis mais de 400 milhões de dólares, algo absurdo para um país com tamanho rombo social. Indignado, Fela distribuiu folhetos pela cidade anunciando seu próprio festival, que seria sediado no The Shrine e aconteceria simultaneamente ao FESTAC. A influência do artista era tanta, que a maioria das pessoas passou a frequentar o Shrine ao invés do festival oficial. O The Shrine contou com apresentações de Stevie Wonder, Sun Ra, Osibisa dentre outros. Todos esses fatores, combinados com as apresentações inflamadas contra o governo e a organização do festival, fizeram com que as autoridades enlouquecessem. Foi o verdadeiro estopim. 

No dia 18 de fevereiro, um ataque brutal dos militares trouxe o fim á República da Kalakuta. Mil soldados invadiram o local, destruindo tudo. Dentre as atrocidades cometidas: estupraram dezenas de mulheres, espancaram Fela e outros moradores, e jogaram a mãe do compositor pela janela do segundo andar (ela viria a falecer meses depois em consequência do ataque). O governo também fechou o The Shrine. Era o fim do Purple Period. E ficou uma mancha eterna em relação ao FESTAC.

Sem poder fazer shows na Nigéria, o músico partiu dalí para uma turnê em Gana. Fela Kuti ainda gravaria mais de 20 álbuns antes de seu falecimento, em 1997. Mas é assunto pra outro dia.

Eduardo Raddi

Eduardo Raddi

Eduardo Raddi tem 24 anos, é acadêmico de Jornalismo, baterista d'O Grito, amante das artes, e um de seus maiores prazeres na vida é ouvir e pesquisar sobre música. De John Coltrane à Slayer, de Radiohead à Tom Zé, é a diversidade de sons que o fascina.

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