Crítica – Terror no Estúdio 666

Terror no Estúdio 666 é um filme de terror com elementos cômicos, uma produção pitoresca que une elementos típicos de comédia de erros a clichês do medo. Protagonizado pela banda Foo Fighters, o longa de BJ. McDonell acompanha a tentativa deles em compor as músicas do que seria o décimo álbum do conjunto. O sexteto liderado por Dave Grohl acaba sendo o grupo de personagens centrais, com papéis importantes dessa estranha peça nonsense e sanguinolenta.

Quem acompanha o FF está acostumado com clipes cuja narrativa é atuada pelos mesmos. Everlong, Learn to Fly ou Walk – que inclusive, remonta vários momentos do clássico Dia de Fúria de Joel Schumacher – são bons exemplos disso, portanto, atuar em frente às câmeras não é exatamente uma novidade para o grupo.

No caso do longa de BJ McDonell é explorado o básico dos clichês de filmes de terror trash. O filme começa de maneira agressiva, mostrando a banda fictícia Dream Window sendo dizimada por um assassino. Logo de início fica a dúvida sobre qual é o mal que a história abordará, se é algo demoníaco, um matador humano ou algo que o valha.

Há boas atuações por parte da banda, Grohl é claramente o mais empolgado da equipe, mas o saudoso baterista Taylor Hawkins também marca presença como um personagem espirituoso. A maior parte das falas mais elaboradas do roteiro de Jeff Buhler e Rebecca Hughes contempla o front man e o baterista. 

Ainda assim há espaço para ao menos uma excentricidade de cada integrante do Foo Fighters: o tecladista Rami Jafee por exemplo é mostrado como um mulherengo porra loka, já o trio de cordas formado por Nate Mendel, Chris Shiflett e Pat Smear são mais discretos, mas tem algum destaque antes do grand finale de cada um.

Os efeitos especiais em CGI são ruins, ironicamente calculados para parecer artificiais. Já a maquiagem e efeitos animatrônicos são soberbos, departamento esse assinado por Tony Gardner, que já havia trabalhado com a banda no videoclipe Run, além de ter participado em filmes como Zumbilândia, Hairspray-Em Busca da Fama,127 Horas.

A maquiagem de monstros, dos assassinatos e as demonstrações de body horror são muitas e bem-feitas, certamente são a parte mais exitosa da produção, em especial pela quantidade de piadas bizarras, como a utilização do sangue de um guaxinim esquartejado como canal de invocação demoníaca.

Se o espectador seguir o filme em dúvida se deve levar a sério ou não a trama, a música incidental de Roy Mayorga sepulta essa dúvida. As melodias compostas pelo arranjador ajudam a transitar bem entre o mistério e a paródia, normalmente favorecendo o segundo aspecto. 

Há um bom comentário sobre o showbizz e as manias decorrentes de quem faz parte dele. A decisão por ir até uma mansão isolada advém do tédio da banda, que quer fazer algo inovador, mas essa motivação ocorre mais por vaidade do que por necessidade real de conseguir inspiração para compor o décimo trabalho em disco.

Como bom grupo de burgueses safados que são, o sexteto aceita a sugestão de Jeremy Shill (personagem de Jeff Garlin) de ir para o lugar onde a Dream Window compôs (ou tentou compor) seu último álbum. Então eles chegam na casa, que mais parece um cenário de filme de assombração domiciliar. 

Como a obra se passa quase toda em um só lugar – uma mansão cujo quintal é grande como um parque aberto – abre-se possibilidade de explorar diversos sub cenários. Os cômodos e a floresta são comuns, mas também podem parecer lugares trágicos, com muito sangue decorativo. Algumas dessas fantasias emulam aspectos de filme-chacina em especial A Casa dos Mil Corpos de Rob Zombie, além de clássicos como Poltergeist e elementos da saga Evil Dead. Também se nota acenos leves ao torture porn típico de O Albergue, de Eli Roth. mostrando assim a intenção de McDonell em ser totalmente reverencial a estética dos Horror Movies.

Para o fanático por música, há alguns bons acenos, como a demonstração da dedicação de Grohl, que faz questão de opinar até sobre o posicionamento exato da bateria, reclamando com o roadie até achar o lugar que ele julga ser o ideal acusticamente falando. Há também algumas cenas onde o sexteto junta as mãos, em referência ao disco Ten do Pearl Jam, sempre citando trechos das músicas clássicas da banda grunge, além é claro, de outros envolvendo ensaios exaustivos, até se chegar no que um músico idealista consideraria o ideal.

A música tema do filme é composta pelo mestre do terror John Carpenter, com seu filho também Cody Carpenter e com Daniel Davies . O tema tem êxito em antecipar o comentário metalinguístico que o filme tomará, é provocativo, lembra os clássicos do cineasta, mas tem todo um clima inédito, não parece mera repetição. 

O filme ainda conta com uma breve aparição de Carpenter como produtor de mixagem, enquanto o FF tenta compor a música, e fica a curiosidade para entender como seria sua participação em mais momentos. Também há uma bizarra participação de Lionel Ritchie, em uma sequência inesperada e bem viajada, e até Steve Vai, que aparece só com suas mãos em uma cena de enfoque nas mãos em um solo de guitarra.

O terror maior do filme são os rompantes típicos de artistas exigentes. Grohl escreveu o argumento a, e fez questão de enfiar referências a brigas de rockstars, bloqueios criativos, até roubo de propriedade intelectual e riffs, o que por si só, é uma boa piada metalinguística, já que Dear Window é um disco de metal gravado quase inteiramente por Grohl, e que serve de trilha sonora para o longa-metragem. 

Mas obviamente o foco sentimental é na sátira. Há um sem número de mortes estúpidas, brigas entre espíritos e músicos, brincadeiras com clichês do rock, elementos de pactos e satanismo. É impossível levar a sério o filme, especialmente após o enfrentamento entre as partes, à beira de uma piscina, e essa atmosfera galhofa é ótima.

Terror no Estúdio 666 é uma obra divertida, despretensiosa, ciente de seus defeitos, pontuada por terror bem humorado, que lida com brigas de egos e conflitos tolos e constrangedores. O carisma do sexteto supera a até a condição de não atores protagonizando uma fita paródia, especialmente pelo desempenho de Grohl e Hawkins, que enfim, teve uma despedida digna. Esses fatores, ao lado dos efeitos práticos, ajudam a temperar o filme como uma comédia errática, de constrangimento e bastante sanguinolenta.

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Filipe Pereira

Filipe Pereira é jornalista, escritor de romances e contos, crítico de cinema, marxista, amante de psicanálise e de punk, além de um canalha terrível.