Disco da Semana – Edy Star e sua Naturalidade Transgressora

Essa semana conversei um pouco com um dos pioneiros da subversiva estética “Glam” no Brasil. Trata-se de Edy Star, que garante que ainda é terrível.

Figura ímpar da música brasileira, Edy foi um dos intérpretes mais transgressores da década de 1960-1970. Com sua estética “cabarística”, ele era uma verdadeira mimetização do rock n’ roll em sua essência. Não completamente no sentido musical, ou sequer intencionalmente, mas no quesito atitude e aura, fatores orgânicos para o cantor. Ele mostra isso em seu primeiro disco solo, Sweet Edy, lançado em 1974. No álbum, Edy exibe sua exuberante presença cheia de irreverência e originalidade, fazendo interpretações de faixas de artistas ímpares da música brasileira, como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Jorge Mautner, Erasmo Carlos, Moraes Moreira, entre outros – muitos dos quais compuseram canções especialmente para ele. Como ele mesmo diz: Uma colcha de retalhos.

Edy é um artista embebedado de influências, que se traduzem em seu disco de estreia. Em entrevista exclusiva para o Disconversa, ele fala mais sobre Sweet Edy, sua trajetória, inspirações e planos para esse turvo futuro que nos aguarda.

Disconversa: Edy, para começar. Quais foram os seus primeiros contatos com a música? E quais as principais influências que fizeram com que ela te cativasse nesse primeiro momento? 

Edy Star: Eu sou um produto da Rádio Nacional. Minhas influências são daquele tempo. Luiz Gonzaga, Nelson Gonçalves, Emilinha Borba, Marlene, Orlando Silva, Ivon Curi. Eu desde pequeno cantei, lá pelos 12 anos, num programa de rádio chamado “A Hora da Criança”. Lá conheci as meninas do Quarteto em Cy, que são minhas amigas até hoje. Naturalmente eu brincava com meus irmãos, de circo, de rádio, e nós fazíamos shows em casa, brincávamos com uma cortina de jornal. O circo naquele tempo tinha música né?

A música foi me envolvendo, me envolveu totalmente. Eu fui sempre cantando, e me destacava muito. Não por ter uma grande voz, pois me acho um cantor medíocre, mas pelo meu jeito de cantar. Depois eu fui enveredar pelo rock n’ roll, porque perto da minha casa tinha o Elvis Rock Club, de Waldir Serrão, onde participava Raul Seixas. Eu tinha 15 anos de idade quando o conheci. Uma vez por mês faziam essa reunião dos artistas que faziam rock na Bahia. Isso era final dos anos 1950, início dos anos 1960. Então entrei na Rádio Cultura, onde eu trabalhava num programa de auditório e era acompanhado por Raulzito e Seus Panteras. Depois musicalmente o que me influencia é Lennie Dale e o Dzi Croquettes, um pouco da bossa-nova, do iê-iê-iê…Tudo isso a gente vai pegando pedaços e formando uma colcha de retalhos. Eu sou uma colcha de retalhos. 

D: E essa questão da originalidade é uma das características mais importantes em um artista, né?

E: Então, eu me formei nessa escola de que não se precisa ter uma grande voz, e sim um tom, e quando digo “tom”, não digo como tom musical, e sim como uma maneira de cantar. Isso é uma coisa que Inezita Barroso tinha muito. Seu folclore não era pela voz, e sim pelo “tom”. Não me considero um grande cantor, não tenho uma grande voz, tenho apenas um jeitinho de cantar, e isso é o que me salva.

D: O ano de 1972 foi marcado pela explosão do glam rock. Uma cena de musicalidade rica, que misturava o rock n roll com elementos da música contemporânea da época, além de forte cultura estética subversiva. Como foi ser um dos precursores dessa estética transgressora num país da América Latina que vivia uma ditadura?

E: O engraçado disso tudo é que estávamos fazendo isso nos Estados Unidos, no Brasil, até na Itália. Fizemos quase a mesma coisa sem se conhecer ou se ouvir. Eu não conhecia T.Rex, fui conhecer depois o Marc Bolan, adorava todo aquele negócio, é maravilhoso. Mas é uma coisa que bateu na cabeça na época, cada um em seu país fazendo praticamente a mesma coisa. Mas não me considero um artista glam. Eu cantava muito folclore, cirandas, bumba meu boi, sambas de roda da Bahia, coisas que eu gosto demais. 

Agora, na época da ditadura, ter que enfrentar isso era uma barra, e tinha que ser macho. Eu nunca me dei esse trabalho de ser tão macho assim [risos]. A ditadura em matéria de sexo não me proibiu nada. Os artistas sofreram pelas mensagens mandadas em suas músicas, pelo que escreviam. Mas no meu ambiente, por baixo, na “segunda categoria”, éramos mais quietinhos. Estávamos mais a fim de transar do que de mandar mensagem. 

D: No seu disco de 1974, Sweet Edy, você mistura o rock com vários elementos da música brasileira. Seu álbum vai desde o rock n’ roll em “Edyth Cooper” até o samba de Lupicínio Rodrigues em “Esses Moços”. Como foi pra você fazer essa mistura?

E: Bom, eu passei um tempo no Recife e fiz um show antológico lá chamado Memórias de Dois Cantadores. Era eu e Teca Calazans e no acompanhamento tinha Naná Vasconcelos, Geraldo Azevedo e Marcelo Mello – que depois criou o Quinteto Violado. Eu sempre fui envolvido com a música brasileira, então trazer isso para o meu disco foi algo completamente natural. Era um glam rock, mas naquela época eu não tinha consciência disso, porque não estava envolvido com aquele movimento. Era tudo muito natural, então o disco tem essas coisas. Tem o afoxé do Caetano, um sambinha safado, aquele mambo do Jorge Mautner, referência a Secos e Molhados…

D: “Edyth Cooper” o Gil Compôs para você…

E: Andei de casa em casa das pessoas que eu conhecia para fazer música pra mim. Fui na casa do Gonzaguinha, do Jorge Mautner, Zé Rodrix, etc. Então consegui todas as músicas. A música que Gil fez pra mim é um retrato meu na Bahia naquele tempo em que ele me conheceu, Caetano e Jorge Mautner também. 

D: Como foi a concepção do “Sweet Edy”?

E: Eu havia sido convidado para gravar. Eu já tinha gravado o Sociedade Kavernista na CBS, mas não era um disco só meu. Agora, esse álbum, Sweet Edy, era com músicos de estúdio, o convite foi do produtor João Araújo – que naquele tempo era o coordenador geral da Som Livre – e o disco seria muito bem cuidado. Fui colocado nas mãos do produtor Guto Graça Mello, que tomou nota das músicas que eu queria e fez os arranjos. A arte gráfica do disco é toda minha, escolhida por mim, o fotógrafo era o Antônio Guerreiro, que era o melhor fotógrafo daquela época. Acho um disco muito simpático. É a minha cara. Transgressor, debochado, escroto… Sou eu. Eu continuo sendo Sweet. Continuo sendo terrível (risos).

D: E quem foram os músicos de estúdio? Não consegui achar informações sobre isso em lugar nenhum.

E: Ninguém consegue saber quais eram os músicos de estúdio, só me lembro que muitos dos instrumentistas que estavam lá trabalhavam com o Gil e com o Milton Nascimento. Não lembro mais quem foram. Logo depois das gravações fui embora para São Paulo, depois voltei pro Rio, já não queria gravar mais nada, estava meio chateado, depois fui embora para a Europa. Tinha muita vontade de saber quem eram, mas a Som Livre já não tinha mais nenhuma informação sobre isso.

Aparentemente houve uma enchente que acabou com todo o inventário deles, e a ficha técnica foi junto. Pra esse vinil de 180 gramas que foi lançado há pouco tempo, nós procuramos. Eles perderam todas as informações nessa inundação. Além disso perderam masters da Lucinha Araújo, da Marília Pêra, etc. Toda essa parte gráfica foi deteriorada pelas águas, eles perderam muita coisa.

D: O ponto principal da entrevista é seu álbum solo, mas eu não poderia deixar de fazer pelo menos uma pergunta sobre a Sociedade da Grã-Ordem Kavernista. Como foi esse encontro de artistas? Como vocês se uniram e resolveram gravar o Sessão das 10?

E: Eu já estava no Rio, contratado pelo Raul, e era um dos produzidos por ele na CBS. Depois ele chamou o Sérgio Sampaio, e nasceu a ideia do Sociedade da Grã-Ordem Kavernista. O Raul queria uma mulher no disco, chamou algumas, que não deram certo, então tinha essa menina que estava querendo gravar que estava vindo de São Paulo, a Miriam Batucada. Ela entrou e gravou.

D: Sobre Raul Seixas, acho que não precisamos nem comentar né? Agora, Sérgio Sampaio e Miriam Batucada… O que você me diz sobre eles?

E: Sérgio Sampaio para mim era um gênio. Acho um gênio, me ajoelho, adoro. No meu disco novo Cabaré Star, eu fiz questão de cantar uma música dele, que inclusive é inédita (“O Que Será de Nós”). Também homenageio Raul (“Crivo”) e canto uma música da Miriam Batucada (“Você é seu Melhor Amigo”). Todos os anos eu vou para o festival Sérgio Sampaio, que acontece lá em Vitória, no Espírito Santo, dia 15 de Maio. O último show que fiz lá foi com Xangai. Me desloco de Vitória e faço questão de ir para Cachoeira do Itapemirim visitar o túmulo de Sérgio. Visito também o de Raul e o de Miriam. No do Sérgio eu sempre vou, era muito meu amigo, frequentava minha casa, me chamava de “Mister Bofélia”. Era um cara visceral, autobiográfico. Raul, por outro lado, tinha mais o lado da filosofia, aquela coisa toda. Sérgio era isso aí, maravilhoso. 

Edy Star e Sérgio Sampaio

Quanto à Miriam, eu adoro ela, acho uma excelente compositora. É desconhecida porque 90% das composições dela não foram lançadas. Tem um pessoal aqui interessado em lançar o material dela, foram eles que descobriram isso. Foram na casa da irmã dela e descobriram uma caixa cheia de fitas. E então vamos tentar gravar um disco em homenagem à Miriam. 

D: Achei muito interessante o encarte da reedição do Sweet Edy. Tem vários artistas falando um pouco sobre você, desde Caetano até Nara Leão.

E: Essa parte dos artistas falando sobre mim é do encarte original da primeira edição. Se você dobra ele em três partes aparece minha cara no escuro. E de um lado tem as opiniões dos artistas grandes daquela época sobre a minha pessoa. Tem Jorge Amado, Gilberto Gil, Lennie Dale, Antônio Carlos, etc. Todos deram opinião sobre o meu disco. Depois eu usei o verso como convite para o lançamento do disco, que eu resolvi fazer na Boate Cowboy, que era um puteiro na praça Mauá.

D: Quais são os seus planos pro futuro? 

E: Deixa eu dizer a você: Do disco Sweet Edy, eu tenho pena de quatro músicas que não entraram no álbum. Tem músicas que foram feitas para mim, depois foram gravadas pelos autores e acabaram não entrando no disco. É o caso de “Roupa Prateada”, do Zé Rodrix, “Da Largura do arame”, do Gonzaguinha, que inclusive no disco eu mostro a carta dele com o manuscrito da letra que ele me mandou. Depois ele mudou o nome da música para “Eu Nem Ligo”. Foi gravada por ele, Wanderléia e até Sidney Magal. E do Raul Seixas “O Moleque Maravilhoso”, que ele tinha feito para mim, era um retrato meu. E tem a música do Luiz Melodia, “Segredo”. Aí eu fico pensando em um dia fazer um EP, em vinil, com 5 músicas. Essas 4 que não entraram no Sweet Edy, mais a abertura do Rocky Horror Picture Show, peça que eu participei, mas que a faixa principal não saiu na edição brasileira do disco. O disco brasileiro não tem “Sweet Transvestite” (Simples Travesti), porque a censura proibiu a palavra Travesti. Gostaria de gravar ela. 

D: Como essa pandemia está te afetando artisticamente?

E: Bom, vamos ver se sobrevivo, já tomei a primeira dose da vacina, estou sempre trancado em casa, saio raramente, de vez em quando vem um ou dois amigos me visitar mas sempre tomando cuidado. Financeiramente estou arrasado, querido. Já faz um ano que não trabalho. O último show que fiz foi em Janeiro, em homenagem a Zuza Homem de Mello e seu livro Copacabana, sobre as músicas que ele fala no livro e as crônicas que ele fez sobre Copacabana. 

Em Vinil

Sweet Edy saiu primeiramente em 1974, pela Som Livre. A edição original é rara e a média de preço ultrapassa os 500 reais, de acordo com o Discogs. O disco posteriormente ganhou uma edição em CD pela Joia Moderna. Em 2019 saiu uma edição luxuosa do álbum com LP azul holográfico – o primeiro vinil holográfico lançado no Brasil – além de conteúdo visual extra no encarte.

Em 2017 Edy lançou seu segundo disco, Cabaré Star em CD pela Saravá Discos. O álbum tem um conceito parecido com o de Sweet Edy. São regravações ou gravações inéditas de faixas de grandes ícones da música brasileira, com a sempre original e irreverente interpretação de Edy e uma produção caprichada, que dessa vez é de Zeca Baleiro.

Eduardo Raddi

Eduardo Raddi

Eduardo Raddi tem 24 anos, é acadêmico de Jornalismo, baterista d'O Grito, amante das artes, e um de seus maiores prazeres na vida é ouvir e pesquisar sobre música. De John Coltrane à Slayer, de Radiohead à Tom Zé, é a diversidade de sons que o fascina.

5 thoughts on “Disco da Semana – Edy Star e sua Naturalidade Transgressora

  • 4 de abril de 2021 em 12:09
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    Fantástica entrevista com este fantástico Edy Star que conheci na década de 60, em Salvador. Tive seu disco Sweet Star, que me foi roubado e não mais consegui encontrar outro exemplar. Gostaria muito de ter adquirir a reedição de 2019, mas não sei como/onde encontrar. Neste disco tem, a meu ver, a melhor interpretação do clássico “Esses moços” de Lupicínio Rodrigues. Tem uma música que me marcou muito: “Raposa prateada”, acho que é este o título. Fiquei muito feliz por saber que Edy ainda está vivo entre nós. Parabéns por esta bela entrevista.

    • 5 de abril de 2021 em 16:47
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      Muito obrigado Edilberto! Edy é uma pessoa de energia contagiante, que legal que o tenha conhecido!

  • 9 de julho de 2021 em 00:02
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    Edy, é um artista completo.
    Vida longa pra nos dá alegrias.
    Adoro suas entrevistas…

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