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Arubu Avua e o álbum generativo Memorabilia

crédito: Lea Taragona

O brasileiro Victor Negri criou um álbum que se autorecria inteiramente a cada dia por composição algorítmica.

Memorabilia é um álbum baseado em composição algorítmica, no qual todos os dias à meia noite é gerada uma nova variação original do disco. Criado por Victor Negri em seu projeto Arubu Avua, o álbum, em incessante transformação, está disponível para ser ouvido neste link: https://s4ntp.org/memorabilia/

A primeira versão do álbum foi divulgada no dia 1° de abril de 2021. Desde então, mais de 200 “novos” Memorabilia foram criados pelos algoritmos, cuja lógica foi cuidadosamente arquitetada pelo artista.

É possível acessar a primeira versão do álbum no BandCamp do Arubu Avua, através do link: https://arubuavua.bandcamp.com/

“Diferentemente da composição tradicional, em que são escolhidos sons ou notas para um determinado momento de uma música, na composição generativa são determinadas as condições, possibilidades, regras ou jogos. São como pontos de partida; e nesse caso não sabemos exatamente quando cada som vai tocar. Então, a principal diferença é que a pessoa não compõe diretamente com sons, mas ‘compõe’ um certo universo de possibilidades sonoras” – Victor Negri.

Para o desenvolvimento deste universo de possibilidades sonoras em que se encontra Memorabilia, Victor utilizou SuperCollider, que é uma linguagem de programação musical e também software livre para composição algorítmica e síntese sonora em tempo real. Existem diversos programas e linguagens de programação que permitem a realização de projetos deste tipo, e inclusive, eles podem ser integrados a softwares de produção musical, permitindo uma infinidade de possibilidades criativas.

Victor Negri é músico, pesquisador e compositor mineiro, residindo atualmente em Portugal, na cidade do Porto. Ele lançou o projeto Arubu Avua em 2014, com o qual já lançou sete trabalhos – entre álbuns, EPs e singles.

Nascido em Poços de Caldas, sua trajetória na música se iniciou durante a adolescência, quando Victor começou a tocar guitarra e a compor, além de fazer parte de uma banda. Em seguida, se mudou para Campinas para estudar na Unicamp, época durante a qual começou a explorar a ideia era de fazer álbuns solo e em que tocava todos os instrumentos. Adentrou o universo da produção musical, explorando inclusive, caminhos mais próximos da música eletrônica – muito influenciado por Brian Eno – produzindo, mixando, arranjando e também compondo ao mesmo tempo.

Ele passou pela residência Amplify Berlin, no Acud Macht Neu e realizou sua pós-graduação na UdK – Universidade das Artes de Berlim, transformando sua história com canção e música ao misturar programação em seus projetos artísticos. A classe em que ele estava envolvido era focada em arte generativa com Alberto de Campo, uma das pessoas que escreve códigos para o SuperCollider. Este álbum é fruto do trabalho de conclusão deste curso na UdK.

O conceito de “canção” sempre esteve muito presente em sua trajetória. Do latim cantĭo, uma “canção” seria aquilo que se canta/produz sons melodiosos – nós, do Disconversa, tivemos a oportunidade de discutir com Victor em uma entrevista na qual pudemos descobrir como sua obra evoluiu ao longo dos anos, sem se afastar completamente da ideia da canção, até culminar no álbum generativo Memorabilia.

crédito: Agustina Sentana (@gux_r)

Sobre o processo de composição, dentro do programa existem instrumentos desenvolvidos virtualmente por Victor. Os algoritmos definem o que cada um deve tocar – arpejos, por exemplo, ou acordes cheios – em seguida há diversas variáveis que devem ser levadas em conta para cada trecho de cada música, como por exemplo quais as notas que serão tocadas por cada instrumento, se são muitas ou poucas, se é rápido ou devagar.

“Outro código decide quais instrumentos vão tocar juntos, qual vai ser a ‘bandinha’ daquela música em questão. Um outro código diz quais ‘bandinhas’ vão tocar cada música. Existe uma sequência, não necessariamente hierárquica, mas uma sequência de complexidade no programa”, ele explica.

“É um projeto muito diferente do que eu fazia antes, não sei se o resultado se parece, mas o processo foi muito diferente: eu gravei umas coisinhas de som, de voz, e fiquei sobretudo programando; e normalmente não é assim que eu faço musicas”.

“Tem coisas que são sintetizadas pelo próprio código, outras são sampleadas. Por exemplo, tem um dó tocado na guitarra, outro no piano e samples de voz. Eu canto pedaços das musicas que depois tem a sua ordem trocada pelo algoritmo”.

Segundo Victor Negri, “O tema central do projeto é a memória, e o próprio álbum é uma representação da memória humana, que se recria toda hora, mesmo quando tenta se recordar várias vezes de um mesmo evento. Assim surge um conflito com a memória do computador, que é totalmente exata e organizada”.

“E esse mundo da música generativa não costuma ter canções, geralmente é uma coisa mais eletrônica. Uma maneira que eu pensei de fazer as canções funcionarem ali, é como se fossem listas de recordações. Porque, como são listas, eu posso trocá-las de ordem, então as letras vão ser sempre diferentes e dentro de um contexto de memória ou de falta de memória, de perda de memória”.

“A capa também se modifica, a imagem se desmancha um pouco – como uma lembrança – no sentido de que agora você consegue ver a imagem nitidamente e no momento seguinte não mais, ou ver um outro aspecto, um novo pedaço que se revela… e na capa criada no dia seguinte já não ver mais nada dos pedaços anteriores”.

Todos os dias, exatamente à meia noite, tudo se transforma, desde os instrumentos que estão presentes, o que eles tocam (inclusive tonalidade e escalas), os efeitos, a mixagem, os títulos, a capa, a ordem dos versos das músicas e das próprias faixas. Também perguntamos para Victor sobre suas influências musicais, entendendo mais sobre o que o levou a criar o universo sonoro específico presente no Memorabilia, confira:

Quais são as suas maiores influências?

“Muitas coisas de canção brasileira, principalmente do começo dos anos 70, por exemplo o Caetano Veloso na época do Araçá Azul e do Joia, com umas canções que estavam indo pra além da canção e me motivavam a pensar:
‘Poxa, o Araçá Azul, o Caetano só fez um Araçá Azul, mas imagina se ele tivesse feito mais um, como é que ele seria?
Ou mesmo o Walter Franco que fez o ‘Ou Não’, que é um disco que é mais radical, e eu me perguntava: ‘Mas e se tivesse mais um além desse, como é que ele seria?’
O ponto de partida pra mim é isso, da canção, expandir um pouco, mas não necessariamente traçando uma linha restrita.
No início do que veio a ser o Arubu Avua, eu ouvia muito James Blake, seu primeiro álbum tinha uma desconstrução vocal meio minimalista/repetitiva que, pra mim, tinha a ver com o Walter Franco, e que talvez isso seja uma conexão meio absurda mas na época fazia sentido pra mim!
E muito especialmente o Clube da Esquina, Milton e Lô sempre – quando eu penso em canção acho que é a referência principal para mim. Ultimamente eu tenho escutado muito Gastr del Sol, uma banda dos anos 90 de onde saiu o Jim O’Rourke, também Residents, Terry Riley, a lista é longa…”

O que você escutou na época do desenvolvimento do disco? E como isso te influenciou neste momento?

“Quando eu estava desenvolvendo a programação no SuperCollider eu encontrei uma lista enorme de opções de escalas para usar, que é algo que eu nunca tinha estudado muito a sério. Com isso comecei a fazer um monte de contas, pra poder encaixar a mesma melodia da voz em escalas diferentes. O som que veio disso me lembrou as canções do Terry Riley, que têm uma mistura meio raga meio jazz… E por acaso, na casa onde eu morava ano passado tinha um CD de um acordeonista romeno chamado Jan Mocanu Strugurel que eu também gostava, e contribuiu pra esse jogo de restrição/liberdade que é compor dentro de uma escala específica.
O projeto tinha também algumas pontes com a Laurie Spiegel, que é uma compositora pioneira na utilização do computador na música e ela tem uma historia vinda da guitarra, ela tocava violão, se tornou compositora, programadora, escrevia softwares… um pouco também da Laurie Anderson, com essa coisa, meio que quase Jazz, mas meio que plástico.
Outros projetos que me inspiram são Grouper, Still House Plants, e também pessoas próximas como Dibuk, Vitor Wutzki, Gustavo Infante, Gabriel Edé…
Também o Dadabots, esse coletivo que compõe com inteligência artificial e faz uns livestreams infinitos no youtube de free jazz, death metal… Era uma inspiração pra mim essa mistura da linguagem humana com a máquina”.


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SoundCloud: https://soundcloud.com/arubuavua

BandCamp: https://arubuavua.bandcamp.com/

Giovana Ribeiro Santos

Giovana Ribeiro Santos

Giovana Ribeiro Santos (@grisaagrisa) tem 23 anos, é compositora, produtora, multi-instrumentista e luthier eletrônica. Engenheira mecânica pela Unicamp e mestre em Engenharia Acústica pela Le Mans Université (França), trabalhou como pesquisadora em acústica musical na Philharmonie de Paris e na Universidade de Edimburgo. Obcecada ao extremo pelo universo infinito que existe na intersecção entre a tecnologia e a arte, atualmente tem focado na criação de instrumentos musicais "não-convencionais" analógicos e digitais, com os quais produz músicas em seu projeto "Grisa".