Grisa entrevista Sentidor: o álbum “Sonho das Flores”

Sentidor é o projeto de música exploratória do artista sonoro e comunicador popular mineiro João Carvalho. Na segunda-feira (15/03) ele lançou o disco instrumental “Sonho das Flores” pelo La Petite Chambre Records – selo atuante entre o Brasil e a França.

Tive o prazer de entrevistar João Carvalho, sobre o projeto Sentidor e o seu mais novo álbum “Sonho das Flores” – lançado na segunda-feira (15/03). A sonoridade que ele criou nesta obra, lindamente onírica, e a maneira como as texturas vão se desmanchando e se recriando ao longo das músicas me trazem imagens tão lindas! Escutar este álbum foi, para mim, como se eu estivesse dentro de um sonho, uma experiência sonora que me transportou para lugares de muita paz… Eu amei infinitamente o álbum ♥

João Carvalho – crédito: Gabriela Freitas

As seis faixas que compõem “Sonho das Flores” foram escritas durante os meses de maio a setembro de 2021, a partir de gravações de campo e takes de violão, sobre as quais foram mixadas num segundo momento as linhas de cordas, samples, sopros, sintetizadores e reprocessamentos digitais. As faixas foram gravadas na cidade e arredores de Felixlândia, no norte de Minas Gerais, onde João trabalha atualmente com comunidades ribeirinhas que tiveram seus modos de vida corroídos pelo rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, no ano de 2019.

Escute “Sonho das Flores” no BandCamp

Cada faixa do disco é acompanhada de vídeo-paisagens, que podem ser acessadas no canal YouTube da LPC Records, e que deixo – carinhosamente – cada uma para vocês conferirem:

1. Sentidor – Sonho das Flores


2. Sentidor – Árvore dos Pássaros


3. Sentidor – Vale dos Vagalumes


4.  Sentidor – Toca dos Coelhos


5. Sentidor – Casa da Floresta


6. Sentidor – Varanda do Sol


Segue abaixo nossa entrevista:

Grisa:  Sobre o nome do álbum, como você chegou até ele e o porquê da escolha?

João: Bem, “sonho das flores” na verdade é uma frase que eu li pela primeira vez num mini-estandarte da Izabella Coelho (@izaclh) que é uma amiga muito querida e arte-educadora de Belo Horizonte. Antes do disco, eu coproduzi um filme junto com a Bruna Piantino – uma cineasta incrível de BH – e a raiz do conceito do disco surgiu nesse projeto, que foi uma obra comissionada pelo Festival Pequenas Sessões.

Nessa época eu e a Iza vínhamos conversando muito sobre plantas e trocando uma bibliografia bem voltada pra elas; A revolução das plantas, do Stefano Mancuso, A Vida das Plantas, do Emanuelle Coccia… Era o auge da pandemia, no momento com a quantidade mais horrenda de mortes, e foi quando eu sofri as minhas perdas mais próximas também. Eu me lembro de conversarmos sobre como pensar em “fugas” de outras formas de vida pra além da humanidade – pensar e especular a consciência das plantas, a capacidade delas de experimentar dor, música, medo – era uma estratégia que fazia menos doloroso lidar com a morte da forma massiva que ela nos circulava na época. Comecei a ler muito sobre as teorias – filosóficas e científicas, tradicionais ou espirituais – que entendem que a terra, os rios, a matéria em geral, e portanto também as plantas – são dotadas de uma vitalidade, uma inteligência ou até mesmo uma consciência própria. Acho que a ideia de que todas as coisas estão vivas é de uma resistência tremenda contra a morte, além de ser uma ideia que (me parece) anda lado a lado com a retomada epistemológica dos povos tradicionais brasileiros, do ambientalismo e da agroecologia, de organizações políticas da terra como a Teia dos Povos e o MST. Resumindo, então (risos) o Sonho das Flores é literalmente essa consciência universal da terra, das plantas, dos modos de vida que escapam e sobrevivem à esfera humana.


Grisa:  Como foi o momento em que você decidiu se lançar na música?

João: Eu comecei a me envolver com música por volta dos 12 anos, acho. Meu pai até hoje trabalha como Luthier nas horas vagas, então desde muito pequeno eu vi violões e guitarras em casa. Com 14 anos eu comecei a formar bandas com amigos de escola, e acho que foi aos quinze anos que escrevi minhas primeiras músicas. Algumas delas chegaram a parar na El Toro Fuerte, até rs. Acho que foi nessa altura que realmente me joguei pra música, fizemos uma turnê por capitais do nordeste, trabalhei alguns anos com a Geração Perdida, produzi alguns discos por ali. Durante alguns 3 anos eu realmente acreditei que viver de música era uma possibilidade pra mim. Mas hoje eu tenho minha carreira como jornalista audiovisual, e isso me dá tranquilidade pra seguir fazendo o tipo de piração musical que eu faço com o Sentidor sem ter que me preocupar muito com as expectativas. Sigo produzindo trilhas sonoras pra cinema, fazendo direção de som, e trabalhando como comunicador ambientalista.


Grisa: Quais são suas maiores inspirações ou o que mais te fascina a compor?

João: Acho que viajar é o que tem mais significado a vida pra mim nesses últimos tempos, e as composições também. Tem alguma coisa de ancestral nessa relação intensificada com os espaços, dessa capacidade de ir peneirando as memórias dos lugares. Tenho prestado muita atenção em formações geológicas, no caminho dos rios, na luz do Sol. Acho que minhas composições vem de afastando um pouco das temáticas mais “familiares” e se aproximando dessas emoções mais geográficas, físicas, espirituais num sentido mais livre dos nossos dramas humanos. Ao mesmo tempo em que, o principal motivador pra esse disco foi o nascimento do filho de uma amiga muito querida. Tenho estudado cosmologias e teologias de povos do oriente médio, onde a luz do sol tem um papel central na experiência místico-religiosa; e também de povos originários dos lados de cá. “A Queda do Céu”, do Davi Kopenawa, foi um livro que teve muito presente nesse processo pra mim.


Grisa: Conta um pouco pra gente sobre a sua trajetória na música? Você fez parte de quais projetos?

João: Acho que a El Toro Fuerte foi minha primeira banda com projeção maior… Possivelmente a maior mesmo. Além disso eu produzi e toquei algumas coisas do Jonathan Tadeu e do Fernando Motta, pela Geração Perdida. A El Toro foi banda de apoio do Fábio de Carvalho durante um bom tempo também, nossos trabalhos se cruzam bastante até os dias de hoje. O Sentidor é talvez o projeto pelo qual eu mais produzo atualmente, e que reúne os meus trabalhos de paisagens sonoras e instrumentais, mais próximo da música experimental. Tem ainda o Rio Sem Nome, um projeto pelo qual eu lancei dois discos de canções, bem rudimentares mesmo, mas pelas quais eu tenho um carinho enorme e pretendo muito voltar a trabalhar em breve. Tive algumas passagens pela música pop também, trabalhando com a  Lua Sanja e a Clara Tannure, duas cantoras de Beagá. Recentemente eu coproduzi um disco do Wagner Almeida que tá lindo e que é um amigo que tá bem no meio da minha trajetória musical também. Pouco antes da pandemia surgiu a NAUSEA, com a Bruna Vilela e Marcela Lopes, que tem um EP no forno que deve sair em algum momento breve também! Provavelmente tem mais alguma coisa que eu deixei passar, mas acho que o resumo passa por aí risos


Grisa: E a sua experiência anterior com a El Toro (amo muito ♥)? Como você enxerga a influência deles na obra “Sonho das Flores”?

João: A El Toro é uma escola e um experimento social muito incrível! Eu aprendi a me relacionar com um público, com expectativas dos mais diversos tipos, pude viajar o país com um grupo de amigos… Compor pra Toro é um processo complexo e coletivo, lento e bem frágil, porque envolve os desejos e as disponibilidades de quatro pessoas muito diferentes! Acho que em vários graus as experiências que vivi com a Toro me trouxeram até o ponto de hoje da minha vida, e nesse sentido tem uma relação meio genealógica com a Toro em quase tudo que eu faço hahaha. Mas pra além disso acredito que o Sonho das Flores vem de um lugar muito diferente, de uma preocupação com a música ambiente e com as gravações de campo que não era exatamente a minha abordagem na banda, sabe? A gente tem algumas conversas regularmente e é sempre curioso pra mim imaginar o que é que eu teria pra acrescentar pra uma reunião da banda hoje, que cada um de nós seguiu caminhos sonoros tão diferentes. Acho que um dia desses a gente vai descobrir! O Fábio em especial foi uma pessoa que acompanhou relativamente de perto o processo desse disco. Ele foi uma das primeiras pessoas que eu pedi pra resenhar o material, e ele bolou uma expressão que me deixou muito muito feliz, a ideia de que as faixas do disco se tratavam de “Biomas” haha. Salve, Fabinho!


Grisa: Quais são os artistas que você mais tem escutado atualmente? E durante a criação do álbum?

João: Uhhhhh, eu adoro essa parte! Hahahaha

Durante a feitura do disco eu ouvia muita coisa de violão brasileiro, apesar de isso não estar muito direto ali; o rastilho do Kiko Dinucci, os Afrosambas do Baden e do Vinícius…o Ykytu, disco mais recente do Fabiano do Nascimento, foi uma influência mais visível também, eu acho. Uma influência bem direta pra mim é o trabalho do El Conejo, a.k.a Bruno Nunes, um querido colega de selo… Cumade Fulozinha, por indicação de um grande amigo do RN, foi algo que andava ouvindo muito na época…o Music for Psychedelic Therapy, do Jon Hopkins. Recentemente eu tenho ouvido bastante Animal Collective, em especial o EP deles com a Vashti Bunyan…o disco novo do Fernando Catatau me pegou demais nas últimas semanas…


Grisa: Falando sobre processos de criação, geralmente você parte de qual ponto quando compõe? Suas músicas trazem muitos samples e texturas variadas (e lindíssimas! Eu sou suspeita para falar, pois amo absolutamente muito esse aspecto na sua obra), geralmente é você que grava esses sons? Como você trabalhou essas texturas e as camadas de sons na obra “Sonho das Flores”? 

João: Muito obrigado, Gio ♥

Em Sonho das Flores, o processo todo começou com uma sessão de uns 40 minutos de violão. Eu preparei os microfones na varanda do meu apartamento, que dá pra uma mata no fundo da cidade, e toquei durante o tempo que achei necessário. Felixlandia é uma cidade bem pequena e os fundos lá de casa tem todo tipo de bicho, de modo que boa parte das texturas ao longo do disco são grupos de pássaros ou outros animais reagindo e interagindo com, por exemplo, os harmônicos que estava gravando. Tem mais uma camada de gravações de campo nos arredores da cidade, na beira da represa de Três Marias…e por último eu arranjei uma série de instrumentos de corda e sopro, alguns tocados e outros sampleados ou simulados digitalmente, assim como reprocessamentos digitais e granulações daquele violão original. A intenção, como comentei ali em cima, é que o disco soasse como uma série de organismos vivos em interação, ou mesmo uma sequência de biomas, de paisagens sonoras geograficamente relacionadas, um tipo de mapa vivo do território em que passei meus últimos meses. Espero que tenha funcionado (risos)


Capa do álbum “Sonho das Flores” por Bruno Nunes Coelho – siga: @ohcoelho

Grisa: E sobre o selo La Petite Chambre? Como aconteceu essa conexão entre vocês?

João: O La Petite Chambre é um selo construído pelo Bruno Nunes e o Daniel Nunes, que são irmãos e alguns dos cofundadores do Constantina – se você não conhece eu recomendo muuuuito mesmo! – que é uma banda seminal de música instrumental de Belo Horizonte. Meu primeiro contato com o som deles há mais ou menos uns dez anos atrás foi um dos meus primeiros incentivos pra fazer música instrumental, quando eu ainda era um jornalista cultural pro blog Altnewspaper. Os meninos também são responsáveis pelo Pequenas Sessões, que é um festival lindo voltado pra música livre e que acontece anualmente em Belo Horizonte. Desde esse primeiro encontro a gente acabou se aproximando e se organizando em volta desse fazer de música que é bem específico e tem um público muito nichado – infelizmente, talvez? – mas que envolve uma dose incrível de carinho com a obra e com o processo. Eu me identifico muito com todo o catálogo, e é uma sensação boa a de construir uma vizinhança pro seu som que traga questões similares, um carinho similar. Sinto mesmo que o catálogo do Sentidor fica em casa ali. Vale muito mesmo conhecer todo o catálogo, que tá disponível pra audição no bandcamp, num microesforco contra a hegemonia bilionária do Spotify do qual eu tenho muito orgulho ♥


Grisa: Como o convívio com a comunidade de Felixlândia tem afetado a sua forma de observar o mundo e como você tem percebido os reflexos dessas vivências na sua obra?

João: Além da mudança de uma capital pra uma cidade de dez mil habitantes, eu me mudei pra Felixlandia pra trabalhar com comunidades ribeirinhas atingidas pelo rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, então o processo todo é bem intenso. Trabalhar mais de perto com comunidades e modos de vida tradicionais e com os impactos da mineração foi um movimento que ressaltou pra mim uma necessidade de desaceleração. O modelo civilizatório que a gente vive hoje é impossível, insustentável, em um nível que eu acho difícil de medir. Não acredito que a gente dure um século mais nesse ritmo. E em alguma medida os modos de vida alternativos que poderiam nos salvar já estão aí, nas beiras dos rios, nos caminhos das plantas, nas florestas agroecológicas. Quando a pandemia começou e eu estava em Belo Horizonte, eu sinto que adoeci precisamente por um modo de vida que já não era mais possível, principalmente naquele contexto, mas não só nele. É a primeira vez em décadas que tanta gente passa fome, perde casa. Eu acho que a gente precisa de comunidades mais afetivas e mais próximas, mais aninhadas, que desenvolvam relações mais afetivas também com a terra em que a gente vive e com as pessoas que partilham dessa terra, com os cursos d’água, com os animais e as plantas que sonham as memórias que a gente sente quando visita esses lugares. E acho que pra fazer isso, a gente precisa de uma música e uma arte em geral que traduza ou que cante esses sonhos. E pra mim esse disco é sobre isso. Sobre um processo individual de cura, mas também sobre um processo coletivo que a gente precisa fazer acontecer, e que tá acontecendo já também.


Grisa: Você gostaria de contar um pouco pra gente sobre os seus próximos planos (ou lançamentos), spoilers do futuro próximo são muito bem vindos hehe

João: Eu gostaria muito de conseguir performar esse disco ao vivo, de preferência em algum espaço aberto como um parque ou uma cachoeira (se alguém de produção quiser me ajudar a bancar essa ideia inclusive, eu adoraria hahaha)

Sobre mais planos pro futuro, tô compondo algumas canções, com voz e letra e tudo mais hahaha que talvez se transformem ou componham um álbum novo em algum momento do futuro.


Grisa: Sinta-se livre para finalizar com suas últimas considerações!

João: Quero te agradecer de novo Gio, pela oportunidade, pelo espaço pra falar esse tanto de coisa. A gente não tem tempo pra essas discussões mais longas né, mas eu acho que muitos dos sentidos do que a gente faz só se dão assim, com tempo e paciência.

E no mais, pelo amor de deus gente, Lula 2022!!!!!!!!! Hahahahaah


Alguns links:
Sentidor no Instagram: @sentidor
La Petite Chambre Records no Instagram: @lpc.records
Bandcamp da LPC Records: https://lapetitechambrerecords.bandcamp.com/
Site da LPC Records: https://www.lpcrecords.com/ 

Giovana Ribeiro Santos

Giovana Ribeiro Santos

Giovana Ribeiro Santos (@grisaagrisa) tem 23 anos, é compositora, produtora, multi-instrumentista e luthier eletrônica. Engenheira mecânica pela Unicamp e mestre em Engenharia Acústica pela Le Mans Université (França), trabalhou como pesquisadora em acústica musical na Philharmonie de Paris e na Universidade de Edimburgo. Obcecada ao extremo pelo universo infinito que existe na intersecção entre a tecnologia e a arte, atualmente tem focado na criação de instrumentos musicais "não-convencionais" analógicos e digitais, com os quais produz músicas em seu projeto "Grisa".