Disco da semana: Alma Rosé e a música em Auschwitz

É difícil sequer conceber a ideia de que fosse possível produzir música no inferno na terra que foi o campo de concentração nazista de Auschwitz. Mas ela acontecia, regida pela virtuosa violinista Alma Rosé, adicionando de certa forma mais caos ainda à atmosfera mórbida e sombria que pairava junto às nuvens de fumaça que, saindo das chaminés, levavam milhões de vidas.

Trajetória

Nascida na Austria em 1906, Alma Rosé tinha uma origem altamente musical. Seu pai, Arnold Rosé (sobrenome que era uma alcunha para Rosenblund, nome de origem judaica), era regente da Orquestra Filarmônica de Vienna, um músico muito respeitado, e seu tio, Gustav Mahler, um fantástico e notório compositor. A infância e adolescência de Alma foram cercadas pela música. 

Por volta dos 26 anos de idade, ela fundou o Die Wiener Walzermädeln, (The Viena Waltzing Girls), uma orquestra feminina que começara a fazer sucesso mas teve sua duração logo interrompida pela ascensão do terceiro Reich na Austria em 1933 – a primeira ação dos alemães foi deixar todos os judeus desempregados.

Algum tempo depois, a musicista conseguiu fugir com seu pai para Londres, e quando a Inglaterra entrou em guerra com a Alemanha, optou por se mudar para a Holanda (na época um país neutro). Lá se casou e mudou seu nome para Alma von Leuven Boonkamp. 

Até o início da década de 1940, Rosé fez shows pela Europa e se tornou reconhecida como uma violinista virtuosa, tocando obras de Beethoven e Brahms em suas apresentações. Quando os nazistas invadiram o país em maio do mesmo ano, a musicista ficou novamente desempregada. Passou ainda um tempo tocando em pequenas apresentações organizadas de maneira clandestina, mas a situação logo se tornou impraticável. 

Na tentativa de fugir da Holanda para a Suíça através da França, foi presa pela Gestapo e levada para Drancy – campo de deportação nazista onde os judeus eram enviados para quarentena antes de irem para campos de concentração. Lá, lembraria de seu verdadeiro sobrenome: Rosenblund. 

Auschwitz – Birkenau

De Drancy partiram os primeiros trens para Auschwitz, e Alma estava em um deles. Chegando no inferno, com a saúde deteriorada e sem ser reconhecida (por estar usando o sobrenome de seu então marido holandês) foi enviada para o bloco de experimentação médica comandado por Carl Clauberg – um dos mais infames médicos nazistas. Para os alemães, os judeus deveriam ser “úteis” antes de morrer. Em Alma, realizaram um teste de esterilização.

Talvez por destino ou sorte, Rosé se recuperou, saiu da ala, e quando os oficiais da SS procuraram uma violinista, lá estava ela. Os nazistas gostavam muito de música, e quando descobriram quem Alma era, a enviaram para Birkenau. Maria Mandel (comandante da ala feminina e guarda de alta patente da SS) logo a recrutou para comandar a ‘Orquestra das Mulheres de Auschwitz’. Alma se tornou respeitada até pelos nazistas, com liberdade para recrutar ou demitir membros da banda. Mesmo quando os músicos não eram qualificados, Rosé arranjava um jeito de os manter no grupo, mesmo que como assistentes – o que em Auschwitz significava vida ou morte. 

Um dia após minha chegada a Birkenau-Auschwitz, meu irmãozinho já não estava comigo. Havia sido selecionado para a câmara de gás. De repente chegou uma moça, que não estava usando aquelas roupas listradas. Ela estava bem-vestida, usava botas e tinha um lenço na cabeça. Para mim ela surgiu como um anjo. Naquele exato momento eu estava chorando, pensando que nunca mais tocaria o violino. Ela se aproximou de mim e perguntou: É verdade que você toca violino? Aquilo era incrível. Eu respondi: sim, toco! Mas não vou tocar para os alemães! Ela disse: Cale-se e venha comigo. E foi assim que entrei para a orquestra.”Relato de uma das membras da orquestra para o documentário ‘Bach in Auschwitz’, dirigido por Michel Daeron.

O grupo era formado por mais ou menos 40 mulheres. Dentre elas estavam polonesas, holandesas, húngaras, alemãs, belgas e gregas. Tocavam todos os dias, com um vasto repertório que ia desde marchas de Franz Liszt e Johann Strauss – Mandel gostava das marchas porque favoreciam a SS na contagem dos recém-chegados prisioneiros, além da contagem dos mortos no campo – até obras mais sutis, dedicadas a jantares de generais e outras ocasiões. 

Nos domingos, se apresentavam entre dois campos, onde as prisioneiras de ambos os lados se aproximavam para ouvi-las. Quando a SS chegava, era oferecido um cardápio com todas as obras do repertório, sob demanda. Frequentemente recebiam a “ilustre” visita de Josef Mengele – o mais famoso e cruel dos médicos nazistas.

Dentre os privilégios que eram às musicistas atribuídos (além da sobrevida em relação aos outros prisioneiros), estava uma fatia consideravelmente maior do que a ração de pão costumeira, o direito a uma pequena acomodação e à um banho quente por dia, além de não ter que fazer trabalho pesado no campo – tratando-se de Auschwitz, isso era um luxo imenso. O pão servia como moeda de troca, e as membras da orquestra conseguiam outros tipos de mantimento através dele.

Quando cheguei a Auschwitz rasparam meu cabelo e me tatuaram. A pessoa que fazia isso costumava fazer perguntas e eu disse que tocava violoncelo. Ele disse: fantástico, você está salva! Eu não entendi nada, estava pelada e careca. Fiquei esperando num canto e veio uma mulher, muito bem-vestida, não sabia se era guarda ou prisioneira. Era a condutora da orquestra de Auschwitz, Alma Rosé. Ela me disse: lamento que você vai ter que ir para a quarentena, mas logo irão busca-la. A quarentena não era nada agradável, era um lugar inacreditável onde grande parte das pessoas morriam, era a porta de entrada para o campo. Tinhamos que esperar horas em pé, e nesse ponto muitas pessoas tinham desinteria e a merda escorria pelas pernas. Éramos chamados de ‘porcos sujos’, como já era de se esperar dos alemães. Foi horrível, mas eventualmente fui chamada e levada para a orquestra.”Anita Lasker-Wallfisch, violoncelista da orquestra, em entrevista para o documentário supracitado.

Alguns prisioneiros que chegavam dos vagões sem o conhecimento de seu fatídico destino, acenavam para a banda, que tocava músicas alegres e festivas a mando de Mandel, como numa singela introdução a uma bestial maldição. No campo de visão das musicistas, guardas preparavam as boas-vindas erguendo suas semiautomáticas. Muitos dos recém-chegados eram enviados diretamente para as câmaras de gás, no compasso da música. 

Em abril de 1944, Alma fez sua última apresentação, numa festa privada da SS. Subitamente muito doente e fraca, foi levada para o hospital, onde foi declarada morta. Em sua honra, a SS aprovou que fosse realizada uma solene homenagem. Essa foi possivelmente a única vez na história em que nazistas homenagearam a morte de um prisioneiro judeu.

As causas da morte são controversas, mas, de acordo com um trecho do último poema que havia escrito, para letrar uma peça de Chopin (encontrado por Hilda Zimche, companheira de orquestra), é de se crer que tenha se tratado de um suicídio:

“A vida estava longe e os desejos, distantes. Meu coração, há muito tempo silencioso. Quero apenas paz.”Alma Rosé

Eduardo Raddi

Eduardo Raddi

Eduardo Raddi tem 24 anos, é acadêmico de Jornalismo, baterista d'O Grito, amante das artes, e um de seus maiores prazeres na vida é ouvir e pesquisar sobre música. De John Coltrane à Slayer, de Radiohead à Tom Zé, é a diversidade de sons que o fascina.

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