Disco da Semana: Muito além do Rumours – Seis álbuns para conhecer de verdade o Fleetwood Mac

Apesar de, a partir de 1977, a banda passar a ser reconhecida quase exclusivamente em função do sucesso estrondoso de Rumours, – um marco na música pop – este foi apenas o décimo primeiro álbum lançado por essa espécie de “coletivo” fundado em 1967 por Peter Green ao lado dos únicos membros constantes, e que deram nome ao grupo (Mick Fleetwood e John McVie). Digo coletivo porque a banda teve diversas formações, álbuns, e distintos músicos talentosos, mas sempre mantinha Mick e John em sua formação – mesmo que tenha sido idealizada por Peter Green, que inclusive escolheu seu nome, homenageando a dupla rítmica (um retrato de sua aversão à fama). 

Hoje em dia, quando se fala em Fleetwood Mac, a associação a Lindsay Buckingham e Stevie Nicks é quase inevitável. Durante toda a adolescência, eu mesmo mantive essa exclusividade. Anos depois, quando finalmente conheci Peter Green, Danny Kirwan e companhia, ela definitivamente se esvaiu. Sem negar a qualidade de Fleetwood Mac (1975), Rumours (1977) e Tusk (1979) – os três discos mais importantes da formação mais famosa – já existe uma infinidade de artigos e documentários sobre estes. Meu objetivo, como o título já denota, é mostrar que a banda não se resume apenas a seu disco mais famoso. 

Fleetwood Mac (1968)

Em 1967, Peter Green havia substituído Eric Clapton nos Bluesbreakers – icônico grupo do guitarrista John Mayall. Lá, ele conheceu o baterista Mick Fleetwood e o baixista John McVie e, meses depois, formaram a própria banda. No aniversário de Green, Mayall lhe deu de presente cinco horas de estúdio. Ele chamou a sessão rítmica, e naquele dia eles tocaram uma música que Peter chamou de “Fleetwood Mac”, que se tornaria o nome do grupo. O compositor recrutou ainda Jeremy Spencer, especialista em guitarra slide, que estaria presente já na gravação do primeiro álbum.

Lançado em fevereiro de 1968, o primeiro disco do grupo recebeu tempos depois de seu lançamento a alcunha de Peter Green’s Fleetwood Mac em função do sucesso do LP também autointitulado que saiu em 1975. O LP debutante ficou em quinto lugar nas paradas inglesas, e a banda logo passou a ganhar reconhecimento como uma das mais importantes da cena de blues da Inglaterra, e Peter Green, a ser considerado um dos guitarristas mais talentosos da época. A importância era tanta, que o próprio B.B King depois diria sobre Green: “Ele tem o tom mais doce que eu já ouvi, ele foi o único que me fez suar frio”.

É um excelente álbum de blues, bem direto, dinâmico e visceral. Desde a catártica “My Heart Beats Like a Hammer“, até “I Loved Another Woman” – um prelúdio do estilo único que Green desenvolveria num futuro próximo, em um fusion de blues e música latina que tomaria forma no próximo single da banda, “Black Magic Woman” – posteriormente regravada e popularizada por Carlos Santana. 

Ainda em 1968, o grupo lançaria o também ótimo Mr. Wonderful, configurado por um blues rock de linhagem semelhante ao seu antecessor.

Then Play On (1969)

No final de 1968, Peter Green recrutou para a banda o jovem e talentoso guitarrista Danny Kirwan. Os dois formariam uma dupla de entrosamento primoroso. Já em 1969 o Fleetwood Mac grava um LP como banda de apoio do lendário pianista de Chicago, Otis Spann (The Biggest Thing Since Colossus), lança as coletâneas The Pious Bird of Good Omen e English Rose, o ao vivo Live in Chicago (com participações de Spann, Buddy Guy e Willie Dixon), e o álbum de estúdio Then Play On.

Se trata do pico criativo de Peter Green na banda e, infelizmente, o início da deterioração de seu estado mental. Depois de seu lançamento, Green deixaria o grupo. Aqui, a direção musical que a banda toma é bem diferente dos primeiros álbuns, e se nota um amadurecimento que fez com que buscassem novos caminhos sonoros. É um disco único, de aura enigmática, repleto de baladas existencialistas daquelas que chegam a deixar os olhos marejados. E são muitas: “Closing My Eyes”, “My Dream”, “Altough the Sun is Shining” e “When You Say”. O LP ainda conta com o rock n roll visceral de “Searching for Maggie”, o blues sofisticado de “Rattlesnake Shake”, além da viagem conceitual de 9 minutos em “Oh Well” – faixa de duas partes totalmente distintas constituída por um veloz rock n roll e uma viajante balada.

Kiln House (1970)

Já sem Peter Green, Spencer e Danny Kirwan – que só compunham algumas faixas pontuais nos discos anteriores – assumiram a direção da banda. Kiln House é uma verdadeira ode ao rock n’ roll e às influências de ambos os guitarristas, que vão desde Chuck Berry e Elvis Presley até Buddy Holly (homenageado na faixa “Buddy’s Song”). Se trata de um revival muito bem-feito do estilo, de maneira eclética e bem arranjada. Em “Tell me all the Things”, composta por Kirwan, se ouve até certa influência de Creedence Clearwater Revival. Spencer, além da guitarra, também assume o piano. 

Christine McVie, que no ano seguinte integraria a banda – e posteriormente faria parte da formação mais famosa do grupo – não só esteve presente acompanhando as gravações, como desenhou a bela capa do LP.

Em fevereiro de 1971, em turnê pelos Estados Unidos, quando fariam um show em Los Angeles, Spencer deixou o quarto de hotel – que dividia com Mick Fleetwood – e disse que iria para uma livraria. Ele sumiu, e o show teve de ser cancelado. Alguns dias depois, o encontraram e ficaram sabendo que ele havia entrado para um culto religioso chamado “Children of God” (Os Meninos de Deus), e não queria mais fazer parte do grupo. Os apelos da banda para que este cumprisse o contrato e terminasse a turnê foram em vão. De acordo com Mick, aquilo se devia a uma viagem de mescalina que a banda teve algum tempo antes e deixou o guitarrista maluco. Peter Green compadeceu-se e ajudou-os a finalizar a turnê.

Future Games (1971)

Sai Spencer, entra o guitarrista estadunidense Bob Welch e Christine McVie (piano). A união dos três compositores traz uma sonoridade totalmente diferente para a banda. São introduzidas harmonizações vocais, algo que não se via frequentemente nos discos anteriores. Destaques para a encantadora faixa que abre o LP, “Woman of a Thousand Years” de Danny Kirwan –  temperada com harmonizações no maior estilo Fleet Foxes, evidentemente os pré-datando algumas décadas – “Future Games” – uma viagem épica de oito minutos composta por Welch – “Lay it all Down” – frenético rock n roll também de Welch – e a última canção do disco, “Show me a Smile” – uma das duas músicas do álbum creditadas integralmente à Christine McVie, que já se mostrava uma talentosa compositora (a outra é “Morning Rain”).

Em 1971 também foi lançada uma coletânea espetacular de “outtakes” (gravações alternativas) das primeiras gravações da banda, de 1967 a 1968 ainda com Peter Green, chamada The Original Fleetwood Mac (é imperdível, por sinal).

Bare Trees (1972)

Seguindo Future Days, Kirwan, Welch, Christine e companhia, conceberam mais um trabalho sólido. Foi a despedida de Kirwan, que passou a desenvolver problemas psicológicos e alcoolismo. Trata-se de uma belíssima despedida, com algumas de suas composições mais brilhantes – “Child of Mine”, “Bare Trees” e “Sunny Side of Heaven”. Destaques também para “The Ghost” (Welch) e “Spare me a Little of your Love” (Christine McVie). A última faixa, “Thoughts on a Grey Day”, é uma poesia escrita e recitada por uma senhora que morava na vizinhança da banda. Ela é creditada como Mrs Scarrott.

Mystery to Me (1973)

Na primeira metade de 1973, já sem Kirwin, o grupo introduziu o guitarrista Bob Weston – que sairia no ano seguinte. Então lançaram, primeiro Penguin e depois Mystery to Me. Ambos os discos já se mostravam prelúdios da sonoridade que o Fleetwood Mac viria a ter, principalmente nas composições de Christine McVie, que se tornava cada vez mais proeminente no grupo – até pelo fato de que Weston não costumava escrever, então sobraram na banda apenas dois compositores. “Why”, faixa que encerra o disco, por exemplo, seria digna de um posto no Tusk (1979). 

Porém, as músicas mais memoráveis aqui são de Welch. “Emerald Eyes” abre o LP com sua aura bonita e misteriosa, e “Hipnotized” é quase um estado de sonho, ou fluxo de consciência, escrita pelo compositor influenciado pela mística leitura de Carlos Castañeda. O disco ainda conta com uma ótima versão de “For Your Love“, de Graham Gouldman, música popularizada pelos Yardbirds ainda nos anos 1960.

Em 1974, a banda lança o último álbum antes da entrada de Buckingham e Nicks, que marca a despedida de Bob Welch do grupo, Heroes are Hard to Find. Em 1979, ano do lançamento do célebre álbum triplo do grupo, Tusk, Peter Green volta de um hiato de quase uma década e lança o brilhante In The Skies, seu segundo álbum solo.

Eduardo Raddi

Eduardo Raddi

Eduardo Raddi tem 24 anos, é acadêmico de Jornalismo, baterista d'O Grito, amante das artes, e um de seus maiores prazeres na vida é ouvir e pesquisar sobre música. De John Coltrane à Slayer, de Radiohead à Tom Zé, é a diversidade de sons que o fascina.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *