Disco da Semana – The Last Poets e os primórdios do Rap

Pré-datando o rap/hip-hop em quase uma década e representando seminal referência para alguns dos principais representantes do gênero, é impossível abordar a história do movimento sem falar sobre o The Last Poets, cuja influência se reflete até hoje.

“Os últimos poetas”

O grupo já nasce transgressor a partir de sua designação, uma homenagem ao poeta revolucionário sul-africano Keorapetse Kgositsile, que acreditava que aquela seria a última era dos poetas antes que a violência se tornasse proeminente. O trio foi formado por Gylan Kain, David Nelson e Abiodun Oyewole no bairro do Harlem em 1968, cerca de dois meses após a morte de Marthin Luther King – fato que os influenciou fortemente a criar a banda – e exatamente no dia em que Malcolm X faria 43 anos caso estivesse vivo (19 de Maio). Com outros anseios para suas respectivas carreiras, Gylan e Nelson deixaram o grupo, e o então solitário Abiodun recrutou Alafia Pudim e Ummar Bin Hassan para substituir os antigos parceiros.

Em 1970, com uma lírica inflamada pelos ideais revolucionários de Malcolm X, os poetas transgressores lançariam seu primeiro álbum, de título homônimo, misturando ardentes versos a hipnotizantes linhas de percussão tipicamente africanas, numa música que reflete seu tempo e temas que, infelizmente ressoam profundamente nos dias de hoje.

De acordo com a própria banda, em entrevista ao canal Global Faction, a poesia foi a forma que encontraram de extravasar a revolta que sentiam em relação a tudo que acontecia naquele conturbado contexto, onde a segregação racial era protuberante na sociedade norte-americana. O álbum conta com um peso pesado na produção: Alan Douglas, que havia trabalhado com Jimi Hendrix, Miles Davis e John McLaughlin. 

Mesmo desprezado pela grande mídia, o primeiro lançamento da banda começou a fazer sucesso. O grupo tocava no East Wind (uma espécie de ateliê destinado ao movimento negro, que se situava no Harlem) ao lado de figuras lendárias como Albert Ayler, Babatude Olatunji e Pharoah Sanders. Além disso, também se apresentavam frequentemente no National Black Theatre – importante complexo artístico também destinado ao movimento negro, que existe até hoje na 5th avenue. Algum tempo depois do lançamento, Oyewole ficou preso por três anos e meio por ter roubado objetos de uma reunião da Ku Klux Klan, e a banda se viu obrigada a recrutar o percussionista Nilaja. 

Em 1971 o grupo lançaria seu segundo disco This is Madness, trabalho que os colocaria ao lado dos Panteras Negras na COINTELPRO do governo de Richard Nixon – serviço de contra inteligência financiado pelo FBI, que tinha como alvo aqueles que o FBI considerava “subversivos”, ou seja, os comunistas, o movimento negro e o movimento feminista. “Hoje em dia eu sou contra, mas naquela época eu tratava minha ‘38 Special (pistola) como se fosse uma carteira.” Disse Oyewole em entrevista ao The Guardian.

Apesar de o grupo e sua importância permanecerem obscuros para muitos, ela é inegável. Para se ter um pouco de dimensão dessa magnitude, a banda foi sampleada ou citada em músicas de nomes icônicos do Rap/Hip-Hop, como NWA, A Tribe Called Quest, Public Enemy e Wu Tang-Clan.

Hustler’s Convention

Como se já não bastasse a importância dos Last Poets, em 1973 Alafia Pudim conceberia outra enorme contribuição para a semente do hip-hop. Trata-se de seu trabalho solo de 1973, Hustler’s Convention, no qual ele é creditado como “Lightning Rod”. É um LP conceitual que pré-data o gangsta rap. Além de também contar com Alan Douglas como produtor em três faixas (“Sport”, “The Bones Fly From Spoon’s Hand” e “Four Bitches is What I Got”) a banda de apoio é simplesmente o Kool and the Gang, e o instrumental da sexta faixa (“Hamhock’s Hall Was Big”) foi composto por Buddy Miles.

Ao contrário do primeiro disco do Last Poets, Hustler’s Convention foi um fracasso comercial, e como tantos outros, anos depois se tornou cultuado, principalmente pelos baluartes do gênero, como os Beastie Boys, Naz, Public Enemy e Grandmaster Flash. Pode-se dizer que o Last Poets e esse trabalho solo de Alafia, dividindo o pioneirismo também com Gil Scott-Heron, foram alguns dos principais alicerces para a criação do Rap/Hip-Hop e seu legado é essencial.

O Last Poets segue, cinco décadas depois, trazendo sua ainda muito relevante mensagem sobre racismo e justiça social através da poesia e da música. O último disco do grupo, Understand What Black Is, foi lançado em 2018.

Em Vinil

O primeiro LP do Last Poets teve sua primeira prensagem em 1970 pelo selo Douglas, fundado pelo produtor Alan Douglas. No mesmo ano, saiu também no Canadá. Em 1971 foi lançado também na França e em Taiwan. 1984 foi o ano de seu primeiro lançamento em CD (Holanda, Reino Unido e Estados Unidos), primeiro relançamento em vinil (pelo selo francês Celluloid) e primeira versão em fita cassete. A partir daí se deram uma série de relançamentos, de 1992 até 2014.

O segundo disco do grupo saiu originalmente também pelo selo Douglas, em 1971, e foi relançado em 1984 pela Celluloid no Reino Unido e nos Estados Unidos. A edição mais recente em vinil, de acordo com o Discogs, foi lançada pela própria Celluloid em 2012. A curiosidade é que a capa dos lançamentos pela Celluloid é diferente da original – esta, desenhada por Mati Klerwein.

Eduardo Raddi

Eduardo Raddi

Eduardo Raddi tem 24 anos, é acadêmico de Jornalismo, baterista d'O Grito, amante das artes, e um de seus maiores prazeres na vida é ouvir e pesquisar sobre música. De John Coltrane à Slayer, de Radiohead à Tom Zé, é a diversidade de sons que o fascina.

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