Disco da semana: O crepúsculo dos Beach Boys

Gravado em um dos momentos mais conturbados de toda a carreira da icônica banda californiana, Surf’s Up é um álbum denso, que desconstrói todos os estereótipos acerca do grupo e das temáticas pelas quais ficou popularmente conhecido.

O ano de 1971 foi excepcional para o rock, e para a música em geral. The Who, Joni Mitchell, Rolling Stones, The Doors, Funkadelic, só para citar alguns, estavam no pico de suas carreiras. Em meio a esse ano tão frutífero, está uma joia esquecida. O décimo sétimo disco de estúdio dos Beach Boys, lançado um ano após seu fantástico antecessor Sunflower (LP que merece uma coluna à parte), é ainda mais surpreendente. Em Surfs Up, o grupo passava a abordar assuntos de conscientização política e ambiental, além de tomar uma guinada lírica existencialista e irônica, acoplada às sempre cândidas e impecáveis harmonizações vocais, e dessa vez à arranjos sombrios e uma aura enigmática, que se deu devido ao turbulento momento em que a banda se encontrava. Enquanto a obra de 1970 remete à uma representação da luz, do sol e do dia, esta mimetiza a noite, a escuridão e o mistério. 

Apesar de terem lançado uma série de ótimos discos desde o cultuado Pet Sounds (1966), a popularidade dos Beach Boys entrou em uma descendente sem precedentes para o grupo, principalmente nos Estados Unidos. Era o fim da era “Good Vibrations”, e a banda experimentava gradativamente novas sonoridades, que ficavam cada vez mais distantes da persona de seu público. No fim dos anos 1960, o conjunto fazia shows para, no máximo 200 pessoas – de acordo com o próprio Bruce Johnston, em entrevista para o documentário Beach Boys: An American Band’ do diretor Malcolm Leo.

Depois de desperdiçar a oportunidade de tocar no Monterey Pop Festival devido aos sistemáticos problemas psicológicos de Brian Wilson, o grupo seria redescoberto pelo público norte-americano apenas em 1970, ao tocar no Big Sur Folk Festival – evento que acontecia anualmente na California – para o qual foram convidados pelo parceiro de longa data da banda, Van Dyke Parks.

Empenhado em voltar ao topo das paradas – tendo em vista que Sunflower, apesar do apreço por parte dos críticos, ficou apenas na posição 151 nos Estados Unidos e foi o álbum até então menos vendido da história da banda – o conjunto demitiu o promoter Fred Vail e contratou como empresário o DJ da Radio KPFK, Jack Rieley. O resultado foi que Surf’s Up acabou conseguindo o número 29 da lista, o melhor desde o álbum Wild Honey, de 1967. 

Contexto, conceito e conteúdo

A partir de meados de 1968, Brian entrou em uma espiral de problemas mentais, passando a maior parte do tempo recluso em sua casa, o que resultou em sua influência na banda reduzida. Dennis Wilson, por outro lado, acabou se envolvendo com Charles Manson, o que ajudou a tornar a situação do grupo ainda mais atribulada. Dennis queria ajudar Charles – até então, para ele, apenas um esforçado aspirante a músico – gravando sua canção “Cease to Exist” no álbum 20/20, sob o nome de “Never Learn not to Love“. A alteração na letra deixou Manson furioso, e Dennis foi seguidamente ameaçado de morte.

 O próprio 20/20, demonstra um pouco da falta de direção em que a banda se encontrava. Apesar de muito bom, é um disco sem muita coesão entre as faixas. Foi também o primeiro álbum em que Bruce Johnston compôs (“The Nearest Faraway Place“). A partir daí, as composições do grupo se tornaram mais heterogêneas. Em Surf’s Up, temos faixas escritas por todos os membros, exceto Dennis Wilson, que estava idealizando e guardando composições para um futuro disco solo. Dennis havia composto duas canções para o LP, sendo elas “4th of July” e “Wouldn’t It Be Nice to Live Again” e ambas acabaram não sendo utilizadas – a última foi lançada apenas 42 anos depois, em 2013, em um box set.

Ainda em 1969, Murray Wilson, o pai de Brian, vendeu os direitos autorais de todas as canções do filho. O músico, que já não andava bem, afundou em uma depressão severa, recorrendo às drogas como forma de alívio, o que o faria piorar ainda mais nos anos seguintes. A banda seguiu fazendo shows sem ele, que mesmo em todo o seu tempo recluso, apesar da diminuição de sua proeminência na banda, ainda contribuía com composições majestosas. No caso de Surf’s Up, Brian trouxe a faixa título, e “Till I Die“, a última, integralmente creditada a ele. No total, Wilson participou da composição de quatro faixas do LP.

A influência do empresário Jack Rieley foi até a temática do disco que, de acordo com ele, precisava focar em assuntos atuais e relevantes. Além disso, Rieley ainda assumiu o vocal principal em “A Day in the Life of a Tree” e escreveu a letra de outras músicas.

O nome Surf’s Up, surgiu da faixa de mesmo título, que integraria o álbum Smile – trabalho conceitual que Brian Wilson estava criando ao lado do letrista Van Dyke Parks. O disco acabou sendo engavetado após os sérios problemas psicológicos que passaram a afligir o compositor. Rieley convenceu Brian a terminar a canção, que se tornou o carro-chefe do álbum. 

A capa do disco é baseada na obra End of the Trail, escultura de James Fraser localizada no Wisconsin, escolhida de forma irônica como uma espécie de renúncia ao passado por parte da banda, sendo apenas um adendo ao fato de que o disco se chama Surf’s Up, título que não tem absolutamente nada a ver com o conteúdo do álbum.

Faixa a faixa

Don’t Go Near The Water – Música composta por Mike Love e Al Jardine sobre a poluição e a destruição ambiental, que ao mesmo tempo serve como uma espécie de repúdio ao próprio passado da banda e a temática tão datada dos primeiros álbuns. Brian Wilson toca piano. As harmonizações vocais que encerram a faixa são absolutamente esplendidas.

Long Promised Road – Letrada por Rieley e musicada por Carl Wilson – que toca todos os instrumentos – é uma canção muito a frente de seu tempo (por mais que essa frase represente um grande clichê no meio dos críticos das artes). Aos 1:25, os teclados formam uma textura fluida que se assemelha a muitos dos trabalhos de uma proeminente e importante banda da atualidade, da qual gosto muito: o MGMT. Ou no caso, o contrário, e apenas 40 anos antes. No final, Carl ainda toca uma breve linha de teclado/sintetizador diferente de qualquer coisa que eu já tenha ouvido nos anos 1970. 

Take a Load off Your Feet – É uma música divertida e gostosa, e está para o Surf’s Up tal qual “Maxwell Silver Hammer” está para o Abbey Road. Para variar, os vocais são deliciosos. É como um “alívio cômico” para um disco tão denso.

Disney Girls (1957) – É o ponto alto da carreira de Bruce Johnston, que a compôs integralmente e de maneira muito inspirada. A letra é existencialista e representa uma certa ideia de escapismo para uma zona de conforto em um mundo de fantasia. Johnston diz: “A realidade não é pra mim, e me faz rir”. A canção tem uma pausa no meio, onde entra uma contagem que abre alas para harmonizações vocais que formam camadas com tamanha perfeição que mais parecem um sintetizador. Elas se estendem em uma crescente até o fim, amalgamadas à guitarra em wah wah, que adiciona uma textura muito interessante à música.

Student Demonstration Time – Um blues de protesto, composto em 1954 por Jerry Leiber e Mike Stoller, teve a letra adaptada por Mike Love para um contexto contemporâneo, baseada no Kent State Shootings, ocasião em que quatro estudantes que participavam de uma manifestação contra a introdução de mais militares na guerra do Vietnã foram assassinados pela polícia em 1970 (Neil Young também escreveu uma icônica canção sobre o incidente, intitulada “Ohio“). O que mais chama a atenção são os metais. É a música mais enérgica do disco.

Feel Flows – Mais uma faixa letrada por Rieley e musicada por Carl, essa é uma das canções mais visionárias do LP, especialmente no quesito da produção. Para alcançar o efeito no vocal, foi utilizado o ‘Reverse Echo’, ou reverberação reversa, que introduz uma aura psicodélica à faixa. Para o efeito de teclado, Wilson gravou um órgão, dois pianos, e um sintetizador Moog. O músico toca todos os instrumentos menos a flauta, cujo monstruoso solo é executado pelo fantástico músico de estúdio de Jazz, Charles Lloyd. O teor lisérgico da letra se encaixa perfeitamente com os sons aqui criados.

Lookin’ at Tomorrow (A Welfare Song) – Assim como “Student Demonstration Time“, essa é uma faixa que nada remete aos Beach Boys de outrora. Composta por Al Jardine, é uma das músicas mais sombrias não só do álbum, mas de toda a carreira da banda. Tem menos de dois minutos, servindo quase como uma gloriosa introdução para mais uma obra-prima que segue.

A Day in the Life of a Tree – Composta pelo gênio de Brian Wilson e letrada por Rieley, a música poderia mover montanhas, tamanho é o seu poder e sua crescente. Rieley canta lindamente a lírica de teor existencialista, que representa o tempo, a passagem da vida, e a morte, com harmonizações angelicais que se potencializam ao lado do órgão. A sonoplastia que apresenta os pássaros e os sons da floresta acrescentam ainda mais para o conceito da fluência do tempo. Quando não se imagina que ela possa crescer mais, a faixa gradativamente se agiganta e causa ainda mais impacto. É assombrosa, magistral.

Til’ I Die – Certa noite, Brian, em meio a uma crise existencial numa praia na California, observava o oceano à noite e se questionava em relação à sua imensidão, e a infinidade do universo. Ele passou as próximas semanas tentando representar o que sentiu em forma de música (isso de acordo com sua autobiografia de 1991). O resultado foi essa faixa, cuja letra traz uma série de questionamentos existencialistas: “O quão fundo é o oceano?”, “o quão longo é o vale?” “Por quanto tempo o vento vai soprar?”.

Surf’s Up – Uma das canções mais lindas de todos os tempos, o ‘Magnum Opus’ do álbum. A faixa, composta por Brian e Dykes, segue uma linha lírica de fluxo de consciência, ambígua e enigmática. Na ‘outro’, os vocais mais parecem anjos descendo dos céus e despejando contentamento através de deslumbrantes harmonizações. E o disco se encerra de maneira impecável.

Em Vinil

Lançado originalmente há cinquenta anos, Surf’s Up teve reedições em diversos países da Ásia e Europa, sendo a mais recente do ano de 2016. Na América, só teve lançamentos nos Estados Unidos e Canadá. Em sua edição original, o álbum lançado em conjunto por Reprise e Brother Records acompanhou encarte duplo incluindo letras e ficha técnica. Além do vinil, teve edições em K7, CD, HDCD, 8-Track e até em rolo de fita.

Eduardo Raddi

Eduardo Raddi

Eduardo Raddi tem 24 anos, é acadêmico de Jornalismo, baterista d'O Grito, amante das artes, e um de seus maiores prazeres na vida é ouvir e pesquisar sobre música. De John Coltrane à Slayer, de Radiohead à Tom Zé, é a diversidade de sons que o fascina.

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