Progressivando: Chris Squire – Fish Out Of Water (1975)

Considerado um dos melhores trabalhos solo dos membros do Yes, Fish Out of Water foi lançado pelo selo Atlantic em 1975 pelo irreverente baixista Chris Squire. No Progressivando desse mês nós vamos entender como esse álbum sintetiza bem a essência mística dos anos áureos do Yes.

O disco tem cinco músicas irretocáveis numa atmosfera mágica, misteriosa, feliz, altiva, serena e pacífica. O álbum foi arranjado, composto e produzido pelo próprio músico durante a primavera e o verão de 1975, capturando muito bem o espírito de renovação, amor e, principalmente, de potência de viver que essas estações do ano representam. O lirismo do álbum fica bem nítido nos primeiros versos de “Hold Out Your Hand”, que dizem “você consegue sentir isso vindo com a luz da manhã, você conhece os sentimentos, vai fazer você se sentir bem”.

“Hold Out Your Hand” fala sobre se conectar com alguém através do Universo com os simples prazeres que ele pode proporcionar. Inclusive, os vocais da canção são dobrados por Nikki, esposa de Chris. A música seguinte, “You by My Side”, é uma continuação e segue também sua ideia lírica, falando agora sobre estar ao lado de quem se ama, sobre ter se conectado. Nos últimos versos da música há uma troca de “você” e “eu” por “nós”, o que sugere que essa referida conexão de amor seja também um amor coletivo, familiar – vale ressaltar que Fish Out of Water é dedicado a sua esposa Nicola (“Niki”) e suas duas primeiras filhas, Carmen e Chandrika.

Fechando o primeiro lado, temos “Sillently Falling”, na qual Squire vai falar sobre “graças caindo lentamente dos céus”. O sentimento puro que ele nos passa com a composição é de um filtro de luz dourada sobre a imagem de um lago límpido, onde o vento embala as árvores, o amor nos abraça pelo ar. Fish Out of Water é essencialmente um disco sobre amar, sobre humanidade, e “Sillently Falling” deixa isso bem claro em passagens como “eu não acredito em milagres, eu acredito no amor” – essa é a mensagem do disco: acreditar mais no poder que nós temos de sentir compaixão e fazer o bem para vivermos num mundo melhor.

Nessa música somos também agraciados com uma longa secção rítmica que lembra bastante o sentimento dos movimentos mais enérgicos de “Close to the Edge”, com a bateria frenética de Bill Bruford em simbiose com o baixo virtuoso de Chris Squire, além de um solo monstruoso de Patrick Moraz no órgão Hammond. 

Chris Squire e seu baixo Rickenbacker de oito cordas

Sim… O time reunido por Squire para as gravações do disco é de um peso indiscutível! Além dos companheiros de Yes, Bill Bruford e Patrick Moraz (que tinha acabado de gravar o Relayer com Squire), temos também o saxofonista Mel Collins, já conhecido por seus trabalhos com o King Crimson, temos o brilhante flautista Jimmy Hastings, que já tinha gravado diversos discos na cena de rock progressivo de Canterbury em bandas como Caravan e Soft Machine, bem como o sub-organista da catedral de São Paulo em Londres, Barry Rose.

Como se não bastasse essa galera espetacular, Squire teve um incomensurável apoio de Andrew Pryce Jackman na orquestração e pianos que são, certamente, elementos-chave para que o álbum conseguisse passar toda sua pretensiosa grandiosidade. Quanto aos vocais, todos estão a cargo do mestre Chris numa sonoridade que lembra bastante o Yes, ainda que não tenhamos a presença de Jon Anderson e seu registro nos agudos aqui.

Virando o disco, temos um show de divisões rítmicas na linha de contrabaixo dentro dos compassos em 7/8 de “Lucky Seven”. Squire foi um baixista muito reconhecido musicalmente por dominar com maestria a arte progressiva de “sincopar”!

Além disso, Squire sempre foi um entusiasta de camadas sonoras nas produções do Yes e não falhou em fazer isso em seu álbum solo, aproveitando ainda mais de sua liberdade criativa. Squire também caprichou nos timbres: pedais de efeito como o drive e o chorus, seu icônico Rickenbacker 4001 tocado com uma palhetada nervosa, o uso de um baixo de oito cordas e até mesmo algumas camadas de guitarra de 12 cordas tocadas por ele mesmo.

É interessante notar como um disco de rock progressivo que não tem um guitarrista consegue ser tão cheio em sonoridade (acredite, você nem vai sentir falta de guitarras em Fish Out of Water, nem mesmo de “solos guitarrísticos”, pois o Squire dá conta totalmente do recado!) e muito disso vem tanto do peso e autencidade que as camadas de contrabaixo dão, quanto dos pianos que seguram toda a parte harmônica das composições e da divina orquestração que preenche com opulência a atmosfera do álbum.

Fish Out of Water torna evidente a gigantesca parcela de contribuição de Chris Squire nas composições, sonoridade e concepção do Yes – é como ouvir um álbum clássico perdido da discografia do Yes! Álbum extremamente bem composto, um deleite aos ouvidos e eu jamais conseguirei esquecer a sensação de tê-lo escutado pela primeira vez…

O álbum tem toda a espiritualidade dos clássicos álbuns do Yes e fica bastante claro que o Chris Squire não era somente o baixista do Yes, mas com certeza seu pilar mais profundo.  Um ponto interessantíssimo desse álbum é de como ele não soa como um “álbum de baixista” – não é que o baixo não esteja em destaque, pois certamente está, mas quem rouba nossa atenção no disco mesmo são as composições como um todo, os arranjos coesos onde nada sobra, nada fica em excesso, tudo no seu devido lugar, mesmo nas partes com muitíssimas camadas onde certa grandiosidade é requerida.

E por falar em grandiosidade, o álbum se encerra com “Safe (Canon Song)” numa espécie de coda, com mais de 15 minutos de uma composição que é construída em forma de cânone onde a cada compasso entra (ou sai) um elemento. A música vai falar sobre companheirismo, sobre ajuda, sobre ter alguém com quem contar quando todo o resto não parecer mais seguro. Aqui vale destacar completamente como as linhas melódicas de Squire vão dar cor para a música que é em sua maioria instrumental.

Aliás, encerramos a audição desse disco com um solo de contrabaixo vigoroso enquanto toda a orquestração está no ápice dessa peça épica! Simplesmente brilhante! Esse foi o único trabalho solo de rock progressivo de Squire. Fish Out of Water é álbum de nome sugestivo, já que “Fish” era pseudônimo pelo qual Chris Squire era conhecido e “out of water” seria um referência a ser um “peixe fora da água” fazendo música sem ser para o Yes – banda que fundou, definiu boa parte de sua sonoridade e foi membro imutável até sua morte em 2015 devido a um câncer. Entretanto, é com essa única pérola musical que o peixe fora d’água nos deixa uma mensagem bastante clara: ame e faça as coisas com devoção.

Raphaela de Oliveira
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Raphaela de Oliveira

Contrabaixista mineira que escolheu a Física como profissão. Divide o tempo que resta entre o ballet clássico, os vinhos e seus preciosos vinis. É capaz de prosear horas a fio sobre sua paixão - o rock progressivo! Aceita um cafézin?

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