Progressivando: Bacamarte – Depois do Fim (1983)

Maio, o mês das mães, ano 2021 – a humanidade segue esperando o depois do fim. Enquanto isso, o Progressivando desse mês vem prosear sobre uma banda-mãe do rock progressivo brasileiro e sua obra-prima: Depois do Fim , lançado em 1983 pelo Bacamarte. Então vamos conhecer um pouco mais dessa pérola e aliviar o coração!

O Bacamarte é um projeto de corpo e alma do violonista e guitarrista Mário Neto, que no final dos anos 70 arrumou mais alguns excelentes músicos para compor o que seria o Bacamarte e gravar o esplêndido álbum Depois do Fim. Nos créditos do álbum temos, além de Mário, Marco Veríssimo na bateria, Delto Simas no baixo elétrico e acústico, Marcus Moura nas flautas e acordeon, Sergio Villarim nas teclas, Mr. Paul na percussão e nos vocais a fantástica Jane Duboc (que é também mamãe do Jay Vaquer!).

Depois do Fim é uma das maiores pérolas do inigualável rock progressivo dessa nossa terra-mãe chamada Brasil; e só conseguiu ser lançado em 1983 por esforços independentes. As gravações do que se tornaria o Depois do Fim aconteceram ainda em 1979, mas nessa época o rock progressivo já estava perdendo seu espaço para diversos outros estilos musicais e Mário entendeu que talvez não fosse um bom momento em termos de recepção do público para retomar as raízes do progressivo lançando o disco ao mundo.  Foi somente anos mais tarde quando Mário resolveu entregar a fita dessas gravações para a Rádio Fluminense FM e o clamor dos ouvintes pelas músicas foi tamanho que, enfim, o Bacamarte conseguiu forças para se materializar. Juntando as economias que tinha, Mário fundou o selo Som-Arte e lançou algumas cópias do álbum em vinil – cópias essas que são raríssimas e muito caras, deixando todos os discólatras desse mundão ansiosos por alguma reedição acessível dessa gema progressiva brasileira!

Detalhes da edição original do álbum: https://www.discogs.com/pt_BR/Bacamarte-Depois-Do-Fim/release/2341371

Mário Neto tem um modo de tocar particular, quase uma mistura de Steve Hackett com Francisco Tárrega, mantendo a postura do violão clássico mesmo tocando guitarra elétrica, não fazendo uso de palheta e nos premiando com um dedilhado muito habilidoso na mão direita e uma primorosa técnica de notas ligadas na mão esquerda. A união do violão clássico com os elementos conhecidos do rock progressivo, além dos vocais excepcionais de Jane, dá ao Bacamarte uma sonoridade muito característica.

Muitas comparações existem entre o Bacamarte e a dupla Curved Air e Renaissance, uma vez que todas as três bandas são marcadas por vocais femininos. Porém é importante deixar claro o quão particular o som de cada uma das três bandas é: o Renaissance com Annie Haslam nos vocais é voltado para um rock progressivo sinfônico, um canto mais lírico e angelical, enquanto o Curved Air com Sonja Kristina tem veias bem mais viscerais, vocais com bastante corpo e drive. Já os vocais de Jane no Bacamarte são tão potentes quanto suaves, além da atmosfera da banda não caminhar nem para um rock progressivo orquestrado e sinfônico, nem para um rock progressivo tão energético quanto o do Curved Air. Por essas e outras originalidades, o Bacamarte é considerado uma das mais relevantes bandas do rock progressivo não só no Brasil, mas do gênero como um todo.

Em Depois do Fim, vamos nos deleitar com arranjos verdadeiramente bem elaborados, canções coesas no tema central que envolve a narrativa do disco – o apocalipse, o fim da vida em sociedade na Terra como conhecemos. O disco abre com a faixa instrumental UFO” num belíssimo violão clássico. A canção ganha corpo em uma sonoridade folk alegre com a ajuda do cravo e da flauta, mas logo se mistura a uma sonoridade espacial guiada pelos sintetizadores até desembocar numa atmosfera misteriosa, representando realmente um objeto não identificado pairando sobre os céus. 

Smog Alado”, a segunda faixa do disco, é introduzida por uma linha incrível de contrabaixo com um pedal de efeito de modulação para simular a ideia de “anuviado” e “empoeirado” que a canção nos revela para o panorama do fim do mundo: a poluição, a destruição e o nada tomando conta de tudo. Aqui a guitarra elétrica distorcida já puxa o destaque para si, mas logo precisa dividir espaço com a voz de Jane Duboc que nos arranca suspiros pela primeira vez no álbum. 

Uma estrutura interessante sobre o álbum é que ele sempre intercala uma música instrumental com uma música cantada, tal que as canções instrumentais são sempre as ímpares, enquanto as cantadas são as pares (teria o Bacamarte se inspirado numa das grandes suítes do prog, “Tarkus”. Seguindo essa lógica, a terceira faixa do disco é “Miragem”, uma composição instrumental com sonoridade que remete à música árabe e flamenca, passando a ideia de uma miragem no meio da poeira desértica do fim dos tempos. A faixa conta com excelentes solos de guitarra e ótimas intervenções da flauta.

A gravação do disco durou cerca de 19 horas totais, pois não só as horas em estúdio eram muito caras como a banda vinha de uma maratona de ensaios pesada, o que fez com que o entrosamento dos músicos fosse lapidado ao máximo, cravando cada detalhe de músicas tão complexas e ricas para que a gravação pudesse ser feita tão rapidamente e com tanta qualidade técnica. Depois do Fim é certamente uma obra de arte, daqueles lampejos geniais de criatividade e inspiração! “Pássaro de Luz” fecha o primeiro lado do disco com camadas de violões clássicos por onde passeia a belíssima voz de Jane trazendo até nós, numa atmosfera barroca, uma esperança de luz para o amanhã.

Virando o disco, temos “Caño”. Nessa canção o destaque fica a cargo do acordeon sendo utilizado com requinte dentro do rock progressivo, o que é um ponto singular na história do gênero. O acordeon mesclado harmoniosamente com os sintetizadores, o andamento altivo da bateria e as partes sincopadas da música fazem dos seus quase dois minutos uma faixa totalmente grandiosa.

Em “Último Entardecer” temos, provavelmente, o auge do álbum. A canção nos abre melancólica no piano, cedendo espaço para a guitarra elétrica que praticamente chora em cima da base no violão e que logo deságua na linda performance vocal de Jane, bradando quase solitária (não fossem as teclas sustentando os acordes) que “o sangue brota no horizonte, a vida estanca nas ruas, as almas se trancam nos corpos que logo se atiram à lua” e eis que entra novamente a guitarra. Essa é uma das músicas mais bonitas que certamente o rock progressivo já criou. Uma suíte de quase 10 minutos que nos traduz como seria um último entardecer na Terra, com toda sua melancolia, desespero e esperança nas diferentes dinâmicas que a música trabalha. Também é uma das letras mais tocantes do disco com passagens ainda tão atuais e relevantes como “o mundo se envolve em trevas que podem nunca acabar” e “na noite repleta de trevas, aos céus se eleva uma prece pedindo que a vida recomece num novo amanhecer”.

Seguindo a intercalação de músicas cantadas e instrumentais, “Controvérsia” é uma dessas ótimas composições instrumentais que até parecem ter um dedinho de Arrigo Barnabé no arranjo pela relação pouco harmônica que nos apresenta entre os sons, traduzindo completamente o título da canção. Um ponto que vale chamar a atenção ao longo do disco é justamente para as divisões rítmicas pelas quais a bateria passeia com brilhantismo, acompanhada das linhas de contrabaixo tão elaboradas quanto.

O disco se encerra com a faixa-título “Depois do Fim”. Introduzida por uma marcha das teclas, a voz de Jane anuncia o fim da Terra que conhecíamos e é bem na letra dessa música que surge a inspiração de Eduardo Pereira para a arte da capa: “se lembra das crianças que um dia vão nascer, arranja uma pedra, nela temos que escrever palavras esquecidas com o tempo, mensagem pro futuro, passado pro presente”. Seguindo a letra, a arte da capa do disco traz uma mulher grávida e um homem cravando em pedra números romanos, que indicariam as tais mensagens para o futuro, dentro de uma caverna (que provavelmente é o único refúgio que restou dos destroços da Terra depois do fim). 

É incrível observar como Depois do Fim não tem pontas soltas – todas as letras, arte e arranjos trabalham juntos para nos contar uma história do fim dos tempos e nos deixar também uma mensagem de esperança do que pode ser o futuro, de que ele será o que escolhermos cultivar hoje, tendo sempre em mente uma análise crítica do que já foi o passado. Nada tão atual para um disco de quase quatro décadas…

O Bacamarte ainda está na ativa e há um registro de arrepiar MESMO da banda reunida em 2015 no Theatro Municipal de São Paulo durante a Virada Cultural para apresentar o álbum Depois do Fim na íntegra! E é assim que eu me despeço do nosso Progressivando, com o coração quentinho por esse registro:

Raphaela de Oliveira
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Raphaela de Oliveira

Contrabaixista mineira que escolheu a Física como profissão. Divide o tempo que resta entre o ballet clássico, os vinhos e seus preciosos vinis. É capaz de prosear horas a fio sobre sua paixão - o rock progressivo! Aceita um cafézin?

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